“Das Boot” Director’s Cut – 1997

Antes de começar devo clarificar que 1997 é apenas a data da versão director’s cut – o filme foi lançado, pela primeira vez, em 1981.

Das Boot, filme alemão realizado por Wolfgang Peterson (“Air Force One”, “The Perfect Storm”, “Neverending Story”), relata a história da última patrulha de um submarino alemão durante a Segunda Guerra Mundial. Durante três horas e cerca de dezanove minutos, podemos ter uma ideia bastante realista de como era a vida dentro de um submarino em clima de guerra: a claustrofobia, a frustração, a ansiedade, a falta de higiene e o cansaço. É justo dizer que, durante grande parte das três horas, pouco ou nada acontece – mas é precisamente essa a intenção do filme. Nem todas as patrulhas eram feitas de batalhas épicas. Muitas delas limitavam-se a navegar sem rumo específico à espera de ordens que muitas vezes não chegavam (e, por outras, quando chegavam, eram missões quase suicidas). Acompanhamos, assim, os marinheiros na sua rotina diária que, ao longo do tempo, se vai deteriorando dando lugar a episódios quase insanes. As cenas de acção, quando chegam, têm o efeito de pôr o espectador num nível de ansiedade semelhante ao dos próprios marinheiros, fazendo-nos partilhar cada batida do coração e cada gota de suor. E convenhamos: podem dizer, com toda a certeza, qual foi a última vez que sentiram isto pelo lado alemão num filme de guerra? O final é completamente anti-climático e, acima de tudo, irónico. Não querendo entrar em detalhes, salto para algumas curiosidades que aprendi após o visionamento do filme.

Não fiquei nada surpreendida ao ler que as frotas de submarinos eram as menos pró-nazi de todo o exército alemão. Isto está retratado no filme de forma excelente e, simultaneamente, amarga. Mesmo os apoiantes mais ferverosos – que no filme estão reduzidos a um – acabam por questionar as suas crenças e todo o propósito da missão. Os marinheiros do filme são cépticos, amargos, cansados da idiotice da guerra. Pormenor curioso? Adoram cantar o It’s a Long Way to Tipperary. Gostei imenso deste retrato pois é raro, num filme de guerra, se mostrar que o “outro lado” era tão humano como o lado que estava a combater pela “liberdade” (notar as aspas) – razão pela qual filmes como “Saving Private Ryan” me fazem bastante confusão. No palco da guerra todos somos humanos e ninguém, e saliento ninguém, tem culpa dos fanatismos dos líderes. No final das contas são todos carne para canhão, sejam alemães, ingleses ou soviéticos. Segundo também li, os alemães começaram a recrutar marinheiros para os submarinos com base nas suas crenças políticas por volta de 1943, quando a frota alemã começou a sofrer grandes baixas. É aqui que entram as crianças fanáticas que podemos ver em filmes como “Der Üntergang”. 

O filme baseia-se no livro autobiográfico e anti-guerra de Lothar-Günter Buchheim com o mesmo nome. Buccheim juntou-se à frota do verdadeiro submarino para uma reportagem fotográfica e está retratado no filme através do personagem Lt. Werner. Buccheim não poupou críticas ao filme, salientando que tem notas de propaganda e que evitou redondamente todas as mensagens anti-guerra do livro. Mas sejamos honestos: nenhum escritor é capaz de ver uma adaptação do seu trabalho e afirmar que está totalmente fiel. Penso que foi o que aconteceu neste caso. O filme é claramente anti-guerra e em nenhuma parte vi tons de propaganda. Será propaganda o estarem a fazer o seu trabalho? Duvido. Buccheim também criticou a representação dos actores, que classificou demasiado dramática para a situação. Pois também pergunto: o senhor nunca foi ao cinema? Fiquemos por aqui. Devo acrescentar a este último comentário que todos os actores foram sujeitos a condições agressivas para melhor representarem o declínio físico dos seus personagens. Também eles passaram todo o tempo de rodagem em ambientes claustrofóbicos, foram proibidos de ver o sol para o tom pálido e desnutrido da pele ser mais real e as cenas foram filmadas por ordem cronológica para melhor captar as reacções e todo o drama da narrativa. Não há nenhum, e saliento nenhum, actor que represente o seu papel em demasia. Todos merecem o mérito que lhes foi reconhecido.

Para mais curiosidades sobre o processo de produção de Das Boot podem consultar a página da Wikipedia. Tem algumas histórias curiosas bem como informação sobre os métodos de filmagem e as réplicas utilizadas.

Para concluir: recomendo vivamente o visionamento deste filme para todos aqueles que gostam de aprender sobre a Segunda Guerra Mundial independentemente da frente retratada. Mostra-nos coisas que nunca conseguimos imaginar, retrata-nos um ambiente absolutamente claustrofóbico e envolve o espectador na totalidade. Sim, são três horas e dezanove minutos. Pode cansar – pessoalmente acabei o filme esgotada psicologicamente – mas vale muito, muito a pena e duvido que o efeito seja o mesmo se for visto com pausas. E tenham presente, sobretudo, que na guerra somos todos iguais.

Nota: O filme ocupa o 25º lugar na lista The 10o Best Films of World Cinema da revista Empire. Para consultar o resto da lista é favor

clicar aqui. Provavelmente criticam melhor o filme em cinco linhas do que eu num artigo longo e enfadonho.

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