“Sweet Tooth” – Ian McEwan

Depois do desastre que foi Solar foi com alguma relutância que peguei no novo livro de Ian McEwan. Mas estava em saldo (desculpas, desculpas) e a sinopse pareceu-me interessante portanto deixei-me de coisas e comprei-o. Ler um livro novo de IanMcEwan logo a seguir a ler um fracasso de livro novo de Zadie Smith é um grande risco: podiam ser duas desilusões em simultâneo. E, durante as primeiras cem páginas, para lá caminhava. Mas ontem fiquei a lê-lo até às quatro da manhã. Não é brilhante e não prende mas tem qualquer coisa.

A história, embora o núcleo seja completamente diferente, tem pontos em comum com Atonement, o que me leva a pensar que McEwan está a tentar voltar ao género que melhor o caracteriza em vez de se focar em desastres do género Solar. Serena Frome, narradora, é estudante de Matemática em Cambridge e, durante um caso com um professor, é groomed para entrar para o MI5. O trabalho é-lhe dado, não pelos motivos que a princípio julgamos, e Serena, embora relutante, começa a desempenhar a sua função no cargo mais baixo do Serviço – este facto serve para McEwan explorar a situação das mulheres que trabalhavam neste tipo de órgão governamental na década de 70: o preconceito, a grande dificuldade em ter um trabalho que não fosse atrás de uma secretária, etc. Mas subitamente as coisas mudam para Serena: é-lhe dado um papel na operação Sweet Tooth, operação centrada no agenciamento de escritores com tendências anti-comunistas (propaganda, portanto). Isto leva-a até Tom Haley, aspirante a escritor e, claro, os dois envolvem-se. Serena fica dividida entre aproveitar a felicidade que vive no presente e contar a verdade a Tom. Este dilema protagoniza a essência principal do livro e é devido a ele que os acontecimentos se vão desenrolando. E é uma questão delicada: qual o momento certo para contar uma verdade que pode arruinar uma relação na qual nos sentimos completamente felizes?

Como escrevi no primeiro parágrafo, é muito difícil entrar na história. McEwan parece já não saber como utilizar a narrativa na primeira pessoa, ainda para mais na pele de uma mulher. As partes que falam da situação económica e política do país são necessárias mas extenuantes e é evidente que Tom Haley é uma projecção do próprio autor. Aliás, McEwan confessa-o no posfácio: os excertos de histórias de Haley utilizadas no livro são histórias que o próprio McEwan deixou a meio – facto que, para qualquer leitor assíduo do autor, é mais que óbvio durante a leitura desses excertos. O final é aquilo a que o autor nos tem vindo a habituar: inesperado, um murro seco no estômago. Mas não é tão brutal como o final de, por exemplo, Atonement ou Amsterdam. Há a esperança de um final feliz e, se o leitor prestou atenção aos pequenos detalhes, conclui que essa felicidade foi atingida.

Tal como Atonement, é um livro que explora o processo de construção de uma narrativa e mostra o quão longe um autor está disposto a ir por uma história. Em Atonement, quando McEwan estava no seu auge, Briony não conhece limites e vive numa perpétua ilusão de que está a fazer a coisa certa. Em Sweet Tooth, os motivos de Haley são bastante diferentes e há um certo elemento de redenção no final. Portanto não, Sweet Tooth não é a depressão e angústia de Atonement. E ainda bem.

É uma leitura que recomendo mas não vivamente. Se são fãs do autor, leiam-no. Não sairão desapontados e é infinitamente superior ao pedaço de … mau caminho que é Solar. Se nunca leram nada de Ian McEwan, deixem este para o final e peguem antes no Atonement. Conselho de amiga.

“Pursued” – 1947

Filme que em português tem o nome Noites Trágicas. Achei por bem salientar.

Pursued é um western/film noir. A ideia parece estranha mas é mesmo isso que ele é: Robert Mitchum protagoniza o filme no papel de Jeb, um homem que não se lembra de onde veio salvo alguns pormenores e que foi adoptado pela família Callum. Cedo se descobre que Jeb tem inimigos, embora só se venha a saber porquê no final do filme, e passa grande parte da vida a ser incriminado pelos mesmos nas mais variadas situações. Tem o whodunnit e o mistério típico do film noir (tirando as pessoas a fumar e os chapéus) e tem cavalos, cowboys e tirinhos. Portanto está tudo lá. Então porque é que não resulta?

Por causa deste senhor. David Lean disse uma vez que Robert Mitchum tinha uma presença tal que quase não precisava representar. Lamento, David, mas discordo. Se tem presença? Tem. Mas ajudava imenso saber representar. Não sei se foi dos primeiros papéis que teve (duvido), se não estava inspirado ou o que quer que tenha sido mas falta-lhe muito trabalho a nível de reacções emocionais. Não vou escrever sobre o desenrolar das situações principais do filme para não estragar o visionamento a quem quer que esteja interessado. Mas é impossível, e sublinho impossível, reagir com passividade ao que lhe vai acontecendo. E ele fá-lo. De mão na anca, cara de frete e chapéu à banda. Só faltava mesmo a pastilha elástica. Quanto a Theresa Wright, que representa simultaneamente o papel de meia-irmã de Jeb, posso dizer que gostei imenso nas cenas de maior intensidade dramática mas, forma geral, é uma representação muito, muito sem sal.

Contudo, a história está bem construída. É apenas a sua execução que falha.

“Black Angel” – 1946

O meu primeiro filme noir foi uma bela experiência.

Neste filme de Roy William Neal, Mavis Marlowe aparece morta no seu apartamento com uma música a tocar repetidamente. Quem a encontra é Kirk Bennett e, logo, torna-se no único suspeito e é preso com sentença de morte. Catherine Bennett, sua esposa, resolve fazer de tudo para o conseguir ilibar pois acredita na sua inocência. Para isto, pede ajuda a Martin Blair, viúvo da actriz, um pianista com graves problemas de álcool que jura a pés juntos que no dia em que ela foi morta só lhe enviou uma jóia e não voltou a encontrá-la. Catherine e Martin tentam reunir as peças do puzzle e procurar a jóia, pois acreditam que quem a tem é o verdadeiro culpado. As suspeitas recaem em Marko, protagonizado pelo asqueroso Peter Lorre, que se vem a descobrir estava a ser chantageado por Mavis. Mas será chantagem o motivo? Será Marko realmente culpado?

O filme é uma caça ao homem à antiga com um final surpreendente embora ligeiramente anti-climático. Teria preferido se tivesse sido a minha teoria a sair vitoriosa. Mas o filme prende, tem um pacing rápido, não tem cenas desnecessárias e isto é algo que tenho notado em filmes deste género. É tudo fast,fast,fast. E isso é bom. Só não me convenceu a actriz que desempenha o papel de Catherine. Mas é um film noir que introduz qualquer leigo ao género e o torna curioso por mais.

“Giant” – 1956

Giant, de George Stevens, pretende ser um épico centrado na história da família Benedict e no seu rancho no Texas.

Digo pretende porque embora tenha alguns elementos do género falta-lhe algo importante: aquela sensação de peito cheio com que ficamos depois de ver, bem, depois de ver um Gone With The Wind, por exemplo. Mas não é por isso que é um filme mau – simplesmente debato a definição de épico. 

O filme começa com a visita de Jordan Benedict (Rock Hudson) à casa de família de Leslie (a belíssima Elizabeth Taylor) com o objectivo de comprar um cavalo para a sua vasta propriedade no Texas. Claro que, ao ver Leslie, se torna óbvio que não é só o cavalo que vai com ele para o Texas. O par casa-se em Washington e parte logo para Benedict, onde se situa o núcleo administrativo do rancho. Para Leslie, rapariga moderna do Este verde, é um grande choque chegar à aridez do Texas e habituar-se aos costumes rústicos da família mas, eventualmente, consegue fazê-lo, criando um lar estável e baseado na profunda relação de cumplicidade e amor que tem com o marido. Importante também é Jett Rink (James Dean), empregado do rancho, que por motivos que não vou revelar porque o meu partner in crime ainda não viu o filme, se vê a braços com um pedaço de terra que lhe dá mais do que era esperado. O filme segue assim a vida destes três personagens: a sua relativa juventude, o amadurecimento e a velhice e a forma como se adaptam às vicissitudes da vida. Só isso.

O grande (heh) problema do filme é que se prolonga demasiado. Com uns pequenos cortes aqui e ali a história conseguia ser na mesma consistente sem alterar rumos de personagens nem nada. Mas, de resto, entretém. Não é um filme que ambicione muito, estabelece o seu propósito como história de família logo de início. A nível de representações, Elizabeth Taylor é, naturalmente, excelente, suave, lindíssima e gostei muito, muito mais de ver Rock Hudson aqui do que em All That Heaven Allows: é uma representação mais suave, com mais charme embora também se tenha que ter em conta que o tipo de personagem é muito diferente. Também gostei muito da cumplicidade entre Hudson e Taylor que, como se sabe, eram muito amigos na vida real. Foi algo que transpareceu para o ecrã e deu muita credibilidade e doçura à relação de Leslie e Jordan. E quanto a James Dean? Foi o primeiro filme que vi com ele e gostei. Estava bem dentro do personagem mas fico à espera de o ver em East of Eden e Rebel Without a Cause nos quais creio que está mais dentro do seu elemento. Contudo não deixa de ser triste que este tenha sido o seu último filme.

“The Great Gatsby” – 2013

Antes de mais nada quero deixar claro que nunca li o livro de Fitzgerald nem vi o filme de 1974. O pouco que sei sobre a história original foi-me revelado através de aulas na faculdade que, claro, me estragaram bastante qualquer tentativa que pudesse ter feito para ler o livro. Portanto o que vou escrever abaixo, quer seja bom ou não (inclino-me mais para esta última opção) é baseado unicamente no filme de 2013. Acho necessário começar com este aviso porque o campo das adaptações de livros para cinema é muito delicado. Não que alguma vez pense que vão chover comentários a acusar-me de nunca ter lido o livro nem saber do que estou a falar mas, caso isso aconteça, já sabem: falo apenas do filme.

Ora bem, qual é a minha opinião sobre o Baz Luhrmann? Muitos artigos em páginas de entretenimento têm tentado responder a questões semelhantes. Chovem artigos de opinião que louvam o seu olho para a cor e para os elementos visuais enquanto, por outro lado, temos a facção que acha que os filmes resultam um pouco como sopa dos pobres, ópio do povo. Vou ser sincera: concordo com aspectos dos dois argumentos. Luhrmann é extremamente espalhafatoso, particularmente – e curiosamente – nas primeiras partes dos seus filmes. É tudo muito rápido, os diálogos são curtos e secos, há close-ups vertiginosos e as representações são exageradas. Temos como exemplo a cena na bomba de gasolina de Romeo and Juliet ou as primeiras cenas de Moulin Rouge. Mas depois há sempre uma acalmia geral e o drama instala-se. E Luhrmann tem tanto jeito para lidar com cenas rápidas e alucinantes como para cenas de grande intensidade dramática, nas quais o jogo entre o elemento visual, a banda-sonora e a direcção de actores faz um todo que, quer se goste, quer não, prende. E estes dois opostos estão presentes em The Great Gatsby – até poderia dizer que Luhrmann apurou os dois extremos sem ter tentado procurar uma ponte entre ambos.

Num livro com tantas metáforas como The Great Gatsby – segundo o que apanhei nas aulas de análise do mesmo, claro – é importante que a componente visual esteja apurada. E este filme é um deleite para os sentidos. A banda-sonora é tremenda, o guarda-roupa ofusca, os cenários são talvez demasiado grandiosos e aquela luz verde é explorada de formas de partir o coração. De partir o coração é também a representação de Leonardo diCaprio – presidente da liga de talento não reconhecido – tão depressa composto, cavalheiro, dono das suas emoções como completamente desorientado e, talvez, algo louco. Carey Mulligan também está muito bem embora me tenha desapontado um pouco. Esperava mais. A indiferença, a… burrice, digamos, está lá e bate certo com o pouco que sei da personagem original mas sei que Mulligan é capaz de muito, muito mais (ver Never Let Me Go). Tobey Maguire não aquece nem arrefece. O trio funciona bem mas é indiscutível que diCaprio joga numa liga só dele.

Forma geral gostei muito. Achei que a mensagem do livro estava explícita embora por vezes se tenha dado demasiado ênfase ao drama. Tenho ideia de que a narração do livro é mais distante e não se envolve tanto no drama pessoal dos personagens. A primeira parte é, como disse, um desastre mas a segunda compensa de maneira a que nunca mais nos lembremos que a primeira existiu, o que é bom. Luhrmann também apostou num certo distanciamento de uma parte para a outra o que faz com que o espectador, a princípio ligeiramente comovido com a história de Gatsby e Daisy, acabe por sentir um pouco a indiferença dela e a solidão dele. Não é um filme perfeito, longe disso. Pode ser considerado o tal “ópio do povo” porque se baseia em emoções fáceis e visuais de encher o olho. Mas quem vai ao cinema vai para se entreter e nisso o filme não falha.

“The Prince and the Pauper” – 1937

“The Prince and the Pauper” (O Príncipe e o Pobre), filme realizado por William Keighley e baseado no livro de Mark Twain do mesmo nome, conta-nos a história de dois rapazes de dois mundos completamente distintos, que se cruzam e acabam por tomar o lugar um do outro, por por coincidência serem muito semelhantes fisicamente. O elenco conta com Errol Flynn, Claude Rains e os gémeos Billy Mauch e Robert Mauch.

A história é o conto clássico de dois rapazes que trocam de lugar um com o outro, sendo um o príncipe de Inglaterra (futuro Edward VI) e o outro um simples rapaz de rua. Desta experiência os dois rapazes vão entender que a vida deles (apenas separada por algumas paredes… e um castelo) é completamente diferente do que poderiam imaginar, e que nem tudo é um “mar de rosas”. Tom Candy (o pobre) descobre o quão manipuladora, traiçoeira e perigosa a vida na corte pode ser e o príncipe Edward experiencia em primeira mão as dificuldades do seu povo. Cada um convive com personagens ligadas a cada “mundo”: no caso de Tom, com o Earl de Hertford (Claude Rains), um homem que quer a todo o custo ser o guardião do príncipe (pois o rei Henry VIII falece) e tomar o poder da corte para si, e no caso do príncipe Edward, com um soldado da fortuna, de seu nome Miles Hendon (Errol Flynn), que o ajuda a adaptar-se à vida no meio do seu povo e o ajuda em várias ocasiões.
Não vou entrar em detalhes quanto ao final, pois esta é uma história simples, e o final é um em que tudo se resolve, os bons têm a sua recompensa e os maus o seu castigo.

(Rita: putos irritantes)

Quanto ao elenco, os elementos mais fracos são claramente os gémeos nos seus papéis principais. Fiquei com a impressão de que eles estavam a representar numa peça de teatro, pois representam com demasiada dramatização (especialmente o “pobre”, Billy Mauch). Os veteranos saem-se muito melhor. Claude Rains desempenha com facilidade o manipulador Earl de Hertford (criando facilmente um personagem fácil de se desgostar), Errol Flynn desempenha o típico soldado herói com espírito aventureiro charmoso e carismático, uma boa personagem para este tipo de filme. Temos também direito a algumas lutas de espada com o senhor Flynn, que me deixaram surpreendido, pois para a época do filme em questão, são bastante energéticas e realistas.

“The Prince and The Pauper” não é um mau filme, mas também não é um filme espectacular – conta de maneira concisa (algumas vezes longa demais) a sua história, sendo que não é de difícil visionamento.

“NW” – Zadie Smith

Lamento informar que a Zadie Smith passou de genial a medíocre.

NW mantém o seu tema habitual: a narrativa foca-se em famílias que habitam os subúrbios de Londres, que não têm a vida fácil, perfeito contraste com a imagem que o turista tem da cidade, etc. etc., dificuldades e racismo e emigrantes. Já vimos tudo isto em White Teeth escrito de forma brilhante. Em NW temos um retrato cansado, no qual a autora tenta ser moderna e avant-garde a nível de linguagem e de estrutura. E falha? Não propriamente. Há momentos de puro génio no livro mas estão, infelizmente, overshadowed por um desejo de querer ser algo mais que salta à vista em cada página. O meu conselho é Zadie, querida, menos. Tenta menos.

Esta foi provavelmente a crítica menos profissional que escrevi mas paciência.