“Sunset Boulevard” – 1950

É extremamente difícil escrever sobre um filme sobre o qual já tanto foi escrito. É extremamente difícil escrever sobre um filme que tanto admiramos. Um filme que, para nós, leigos, não tem falhas. Mas vamos tentar.

Realizado e parcialmente escrito pelo meu querido Billy Wilder (realizador de Some Like It Hot, um dos meus filmes favoritos), Sunset Boulevard é um daqueles filmes preciosos que revelam o lado sujo da indústria cinematográfica. Neste caso temos um escritor, protagonizado pelo suave William Holden que, devido a certas vicissitudes, se encontra, por acaso, dentro da mansão Dickensiana de uma popular actriz de filmes mudos (a excelente Gloria Swanson) que caiu no esquecimento após o aparecimento dos talkies. Esta é uma temática que também podemos ver explorada em Singin’ In The Rain, numa cena específica em que uma popular actriz revela ter uma voz atroz para filmes sonoros. O espectador não se pode deixar de perguntar se foi isso que aconteceu a Norma Desmond embora seja muito pouco provável.

Norma, contudo, não tem noção de quão fundo chegou. Apercebe-se que alguma parte do público não se lembra dela mas acredita que muitos deles estão simplesmente à espera do seu regresso. Vive num completo mundo de ilusão e, mais uma vez, isto produz um efeito arrepiante no espectador. É impossível não pensar no quão real esta história será, na quantidade de actores e actrizes que conheceram as luzes da ribalta, a fama, o reconhecimento numa dada altura e viram isso retirado subitamente e se deixaram levar pelo desespero. Que inevitavelmente leva à loucura.

Depois de rever o filme pela segunda vez continuo na dúvida se é possível simpatizar com Norma Desmond. Sim, ficamos absolutamente abismados com o desempenho de Gloria Swanson (a expressividade do olhar é indescritível) mas Norma está tão consumida pelas suas próprias ilusões que acaba por se tornar numa mulher orgulhosa, ligeiramente arrogante, teimosa e muito, muito egoísta. Por um lado este egoísmo tem explicação: depois de ter visto a sua fama cair na lama é natural que se agarre ao pouco que tem com unhas e dentes. E este filme não pretende dar uma lição de moral, uma história de redenção. Mas, por outro… é possível ter pena de Norma Desmond mas a pena não é sempre um sentimento positivo. Aliás, argumentaria que é mais negativo que positivo. Também é curioso verificar que Gloria Swanson teve um reboost na carreira após este filme tal qual Norma teria tido fosse o seu argumento capaz. O que me lembra a cena com Cecil B. DeMille, a única “personagem” (notar aspas) em todo o filme, tirando Max, que lhe mostra simpatia genuína e compaixão.

Portanto, vejam o filme, vejam. O Billy Wilder nem sempre acerta mas, quando o faz, acerta em cheio. Como já referi acima não há nada que encontre de errado com este filme: as representações são excepcionais, o humor é negro e mordaz, os cenários são de tirar a respiração e o ambiente geral é de incredulidade total. É um filme que mexe connosco e nos faz chegar à conclusão que o glamour da indústria cinematográfica esconde muita, muita sujidade.

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