“Defying Hitler” – Sebastian Haffner

Vi pela primeira vez este título numa bibliografia para Cambridge mas não o consegui encontrar em lado nenhum. Voltei a vê-lo num artigo escrito pelo Michael Palin o que me deu ainda mais vontade de o ler porque… enfim, Michael Palin, não é? Consegui encontrá-lo, por sorte, num alfarrabista aqui em Glasgow e assim que me despachei das leituras obrigatórias para o curso comecei a lê-lo. Primeiro escrevo sobre o que trata e depois logo passo para a opinião.

Sebastian Haffner – nome verdadeiro Raimund Pretzel – foi um conceituado jornalista político e ocasional historiador alemão. Começou a escrever o manuscrito de Defying Hitler (Geshichte eines Deutschen, o que me leva a pensar que a escolha de título em inglês foi um bocadinho infeliz) durante o seu exílio em Inglaterra mas, quando começou a guerra, achou melhor parar e concentrar-se noutros temas. Foi ele o autor de Germany, Jekyll and Hyde, pequeno manual que mostrava aos ingleses os pontos fracos da Alemanha nazi e que, na altura, vendeu mais de um milhão de cópias. Depois de uma carreira de sucesso quer em Inglaterra quer na Alemanha viu-se limitado fisicamente por uma doença – nunca é explicitada qual – e pediu ao seu filho, Oliver Pretzel, para, depois da sua morte, procurar entre os seus papéis um suposto romance e enviá-lo a editoras. Oliver assim o fez. Enquanto procurava o tal romance encontrou o manuscrito de Defying Hitler e leu-o de uma só vez. Enviou-o a um amigo para ter uma segunda opinião, caso a dele estivesse influenciada pelo grau de parentesco que tinha com o autor, e a sua opinião foi secundada. O manuscrito foi publicado e, anos mais tarde, foi re-editado com dois novos capítulos que Oliver entretanto descobriu. A recepção foi, em geral, unanimemente boa mas alguns críticos duvidaram da veracidade do tom do narrador – acusavam Oliver de ter mudado o desenrolar de alguns eventos para melhorar a imagem do pai. O manuscrito foi enviado então para um proof reader que confirmou que nada tinha sido alterado. E assim o livro foi traduzido e chegou às prateleiras inglesas em 2002.

A princípio custa um pouco entrar na narrativa. O género autobiográfico nem sempre é fácil. Haffner começa com um breve Prólogo no qual fala da história da Alemanha e do povo alemão até 1933. Esta informação acaba por ser útil para uma melhor compreensão do que se segue. O que aborda, então, Defying Hitler? É a história de um cidadão berlinense, não-judeu, que testemunha a ascensão do regime nazi com incredulidade. Através dos vários episódios que vai narrando, Haffner lança algumas questões morais e possíveis explicações para o porquê de uma tão fácil inserção de um regime nacionalista na vida comum alemã. Porque, afinal, como Oliver explica na conclusão, a pergunta mais frequente depois de 1945 foi precisamente essa: como? No livro vemos os pontos fracos do povo alemão expostos e como Hitler e os seus seguidores conseguiram aproveitar-se deles. Temos aqui um perfil psicológico de todo um povo. E é uma leitura fascinante, absorvente e, sobretudo, elucidativa. Deixo aqui algumas citações que me pareceram interessantes.

Sobre a loucura por atletismo que caracterizou a era Stresemann:

It did not occur to them that, through sport, the lure of the war game, the old thrilling magic of national rivalry, was being exercised and maintained and that this was not some harmless venting of bellicose instincts. They failed to see any connection. They were blind to Germany’s relapse.

Sobre a violência do anti-semitismo nazi:

It is something new in the history of the world: an attempt to deny humans the solidarity of every species that enables it to survive; to turn human predatory instincts, that are normally directed against animals, against members of their own species, and to make a whole nation into a pack of hunting hounds. Once the violence and readiness to kill that lies beneath the surface of human nature has been awakened and turned against other humans, and even made into a duty, it is a simple matter to change the target. That can be clearly seen today; instead of ‘Jews’, one can just as easily say ‘Czechs’ or ‘Poles’ or anyone else.

Sobre a forma como este anti-semitismo era encarado pelo povo alemão:

It shows how ridiculous the attitude is, still found widely in Germany, that the anti-Semitism of the Nazis is a small side issue, at worst a minor blemish on the movement, which one can regret or accept, according to one’s personal feelings for Jews, and of ‘little significance compared to the great national issues’. In reality these ‘great national issues’ are unimportant day-to-day matters, the ephemerial business of a transitional period in European history – while the Nazis’ anti-Semitism is a fundamental danger and raises the spectre of the downfall of humanity.

Ainda sobre as reacções do povo alemão ao regime Nazi:

…, it is one of the uncanny aspects of events in Germany that the deeds have no doers and the suffering has no martyrs. Everything takes place under a kind of anaesthesia. Objectively dreadful deeds produce a thin, puny emotional response. (…) Humiliation and moral decay are accepted like minor incidents.

Sobre a forma como o regime apelou aos instintos masculinos mais básicos de camaradagem e como essa camaradagem é perigosa:

And yet I know for certain, and emphatically assert, that this very comradeship can become the means for the most terrible dehumanisation – and that it has become just that in the hands of the Nazis. They have drowned the Germans, who thirst after it, in this alcohol to the point of delirium tremens. They have made all Germans everywhere into comrades, and accustomed them to this narcotic from their earliest age: in the Hitler youth, the SA, the Reichswehr, in thousands of camps and clubs – and in doing this they have driven out something irreplaceable that cannot be compensated for by any amount of happiness.

Comradeship is part of war. Like alcohol, it is one of the great comforters and helpers for people who have to live under unbearable, inhuman conditions. It makes the intolerable torable. (…) It anaesthetises us. (…) if it is exercised only for pleasure and intoxication, for its own sake, it becomes a vice. It makes no difference that it brings a certain happiness. It corrupts and depraves men like no alcohol or opium. It makes them unfit for normal, responsible civilian life. Indeed it is, at bottom, an instrument of decivilisation.

Há um capítulo inteiro sobre esta problemática e é tão, tão interessante que podia ficar aqui mais meia hora a citá-lo. Mas melhor do que isso é lerem-no vocês, não acham?

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s