“Persuasion” – 2007

Falei neste telefilme da ITV no artigo que escrevi sobre o medíocre Whitechapel por ter como protagonista o mesmo actor: Rupert Penry-Jones. Agora vou-me debruçar sobre ele com um bocadinho mais de atenção, quiçá fanatismo.

Para quem não sabe, o filme baseia-se na obra de Jane Austen publicada postumamente em 1818. E é uma história que tento muitas vezes ignorar que existe. Porquê? Porque fala de amor sofrido e de segundas oportunidades. Anne Elliot, protagonizada pela espectacular Sally Hawkins, é a filha do meio da ex-proeminente família Elliot, que se vê obrigada a alugar a sua enorme casa para pagar dívidas. Os inquilinos são Mr. e Mrs. Croft, esta irmã de Frederick Wentworth. E quem é Frederick Wentworth? É um oficial da marinha que, anos antes, se tinha apaixonado e pedido Anne em casamento apenas para ser recusado – Anne fora influenciada pela família a não casar com um homem que não tinha hipótese de alguma vez ter um estilo de vida estável, por mais apaixonada que estivesse. Portanto, o destino volta a pôr Wentworth e Anne a poucos metros de distância. Há culpa da parte dela, ressentimento da parte dele. Wentworth não perde uma oportunidade de mostrar a Anne o quão ficou magoado e o quão deseja que o próximo interesse amoroso seja uma mulher de opinião firme, que não seja facilmente influenciável. Mas as memórias de tempos felizes falam mais alto. Anne sofre em silêncio ao ver Wentworth aparentemente indiferente, mas Wentworth também está perturbado pela presença de Anne. E o resto é história.

Persuasion é, na minha opinião, o romance mais adulto e pessoal de Jane Austen. Nele não só notamos uma crítica social mais amarga e incisiva do que o habitual mas conseguimos salientar também os desejos de uma mulher que viveu isolada, que dedicou os seus dias à família mais próxima e que também se viu forçada a recusar a sua hipótese de felicidade por influência familiar. Gosto de pensar que Austen escreveu Persuasion como uma espécie de expiação à la Briony Tallis: uma expiação que não atenua o sofrimento de ninguém a não ser o da pessoa que causou a sua própria desgraça. Aliás, a comparação com a Briony é ligeiramente infeliz porque a Briony é simplesmente estúpida e egoísta mas adiante. Imagino Austen a escrever o reencontro de Anne e Wentworth a sonhar com uma segunda oportunidade com o seu Tom Lefroy, a escrever os diálogos finais como algo que tivesse pensado e ensaiado dizer a Tom se um dia ele regressasse. Posso ser demasiado sentimental e posso estar a ler demasiado na história mas, no final de contas, sou uma estudante de literatura. Cabe-me ser far fetched – até é quase uma obrigação.

Portanto tento sempre evitar aproximar-me da história. É demasiado emocionante até porque todos nós fizemos algo de que nos arrependemos no amor. Não que se tivéssemos feito o correcto fosse garantia de um final feliz – nunca nada o é – mas a ideia de uma segunda oportunidade, uma oportunidade real, para dizer as coisas certas e ter uma hipótese genuína de estar com quem gostamos é algo que desde adolescente me amolece o meu coração empedernido.

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