I </3 Mr. Rochester

Acabei agora de rever a adaptação de 2011 de Jane Eyre, por Cary Fukunaga e apercebi-me o quão bom foi ter estudado a obra a fundo durante a minha estadia em Glasgow. Já a tinha lido antes – quem me conhece sabe que os meus joelhos tremem quando se fala de literatura da era Vitoriana. Mas estudá-la daquela forma, ler diversos artigos com diferentes pontos de vista, conseguiu fazer-me ver as coisas de outra perspectiva. E, infelizmente, não é uma boa perspectiva. Quando era pequena e vi, pela primeira vez, a adaptação com William Hurt e Charlotte Gainsbourg achei que faltava sentimento à história mas vi o Mr. Rochester como o típico galã Darcy-esco, o herói romântico ultra-desejado por toda a mulher. Encarava este tipo de história com normalidade e julgava que seguiam uma fórmula fixa: rapariga com inteligência fora do comum conhece homem atraente com quem consegue ter conversas com conteúdo, apaixonam-se, aparece um obstáculo, o obstáculo é ultrapassado e final feliz para todos. De facto, Jane Eyre parece obedecer a esta fórmula mas aí é que está o busílis: parece. E foi preciso crescer e ler o livro duas vezes com lápis na mão para lá chegar.

Porque Mr. Rochester não é, de todo, o herói romântico ultra-desejado. É um produto do seu tempo, é certo, com a sua camisa branca de colarinho desapertado e frases demasiado dramáticas para seu próprio bem. Mas é misógino e egoísta. E ainda me choca como uma rapariga como Jane, com a cabeça no sítio, se apaixonou por tal criatura. Certo é que nunca se deixou manipular e fez sempre o que julgava ser certo, por mais difícil que esse caminho fosse. Mas há tantas instâncias no livro que mostram que são dois seres que pouco ou nada têm a ver um com o outro. A mais gritante é o episódio da compra de prendas de casamento, no qual Rochester manifesta a sua intenção de fazer chover sobre Jane tudo o que é luxo, vesti-la com requinte, dar-lhe jóias caras. Jane chega mesmo a fazer a comparação à mulher de um sultão e nega-se a aceitar toda aquela objectificação. Mas pistas como estas há muitas e Jane continua a seguir o seu coração em vez da sua cabeça – um erro que a educação em Lowood falhou em colmatar. E o que dizer de um homem que sabe perfeitamente que não é livre de escolher o que quer e que, mesmo assim, pede outra mulher em casamento? Duvido seriamente que Rochester alguma vez tenha amado genuinamente Jane – isto é, antes do incêndio. Porque quando se ama alguém não se sujeita essa pessoa a uma situação sem honra, a uma situação que pouco ou nada tem a ver com o carácter que tanto admiramos. E ser amante de alguém ia contra tudo aquilo em que Jane acreditava, e Rochester tinha que o saber. Mas continuou com a mentira. E ainda tentou persuadir Jane a ficar.

O que me revolta é o regresso de Jane. Compreendo a paixão, compreendo o forte sentimento que nos une ao primeiro homem por quem sentimos algo mas pensem assim: Jane não tinha maneira de saber do incêndio. Não tinha maneira de saber que Bertha se tinha suicidado e que Rochester estava livre estando, assim, o seu caminho para a felicidade desimpedido. Por isso posso concluir com todo à vontade que o regresso de Jane significa uma negação de si mesma, uma pré-disposição de deitar fora tudo aquilo em que acredita e tudo o que lutou para ser (uma mulher independente, racional, não propensa a paixões violentas) por causa de um homem que lhe propôs viver uma vida humilhante. O desenrolar dos eventos é, no mínimo, conveniente. Nenhum carácter sai lesado e Rochester ainda acaba por ser visto com bons olhos: a sua cegueira significa uma final aceitação de Jane tal como ela é, agora que só lhe consegue ver o espírito. Não me convence. Jane não devia ter voltado. Não devia ter casado com St. John Rivers de maneira nenhuma, mas não devia ter voltado. O respeito ganha-se. Sim, há momentos de fraqueza em que apetece mandar tudo o que construímos ao ar para estarmos com aquela pessoa que nos faz sentir um fogo no peito mas o fogo desaparece. O auto-respeito não.

Tenho que reler o livro assim que me for possível, agora com um lápis de cor diferente. Por cada vez que Rochester for uma besta, faço um sublinhado. Vou ter o livro todo de uma cor, mais tarde ou mais cedo. Mas vá, convenhamos que no caso concreto do filme de 2011 até dava uns beijinhos ao Fassbender.

Nota: Recomendo vivamente a leitura deste artigo: The Sultan and The Slave: Feminist Orientalism and the Structure of Jane Eyre. Tem algumas ideias bastante far-fetched e nota-se um carinho especial por Bertha – ainda tenho que escrever sobre a Bertha e o Wide Sargasso Sea – mas tem um ponto de vista muito, muito interessante. Leiam!

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