Castelos no ar

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Este artigo pode parecer superficial a muitos mas quando vi esta imagem no Facebook fiquei com uma nostalgia tal que me era impossível não anotar algo.

A verdade é que tenho pena das crianças de hoje em dia. Acho-as demasiado protegidas e tende-se a educá-las da forma mais fácil. O que é compreensível, tendo em conta a carga horária dos pais e, sobretudo, o facto de os avós hoje ainda trabalharem. A única solução é recorrer a entretenimento fácil, a ATLs que provavelmente não estimulam tanto o cérebro de uma criança como deviam. E depois há toda aquela ideia de “não vás brincar para aí que te sujas”: a ideia da infância é precisamente essa! Brincar, rebolar na relva, encher a roupa de nódoas de tinta e lama. Mas enfim, este texto não é sobre isso. É sobre a falta de estímulo intelectual. E para isso vou escrever um pouco sobre a minha infância que, admito-o sem quaisquer problemas, foi a fase mais feliz da minha vida, e como esse período foi influenciado por livros e histórias.

Fui criada pela minha avó. O horário de trabalho da minha mãe não lhe permitia passar os dias comigo embora tenha sido uma presença constante. Mas muito do que sou hoje devo-o à minha avó. Para começar, não me deixava ver desenhos animados sem conteúdo. Foi uma luta convencê-la a deixar-me ver Dragonball porque ela achava que aquilo contribuía muito pouco para a minha formação. Secalhar tinha razão, mas um bocadinho de diversão nunca fez mal a ninguém. Adiante. Os programas que via iam da Rua Sésamo – que me ensinou a ler e a escrever de forma rudimentar antes de entrar para a primária – e, sobretudo, adaptações de clássicos da literatura. Os meus favoritos eram o DartacãoAs Mulherzinhas, umas versões muito antigas do Secret Garden e da Pollyanna e, acima de tudo, uma versão japonesa do Huckleberry Finn que dava na RTP2. A minha avó aproveitou logo a deixa e procurou versões infanto-juvenis destes romances para eu ler. Aprendi a jogar o jogo da Pollyanna (encontrar sempre o lado bom das coisas… algo que se perdeu com a adolescência), imaginava lutas ao lado do D’Artagnan, vestidos compridos e palácios mas o que me marcou mesmo foi a determinação da Josephine March e aquele espírito de pura, total e completa liberdade do Tom Sawyer e do Huck Finn. A edição que tinha do Little Women até desenhos tinha mas li-a vezes e vezes sem conta e ainda guardo o livro com carinho, as páginas amarelecidas e dobradas de tanto uso. Com o Tom Sawyer foi um total encantamento. Lia um capítulo e ia logo a correr para o quintal: aquele canto era a casa na árvore de Huck, aquele mais além a escola, passando pela casa da Becky. Eram correrias desenfreadas a imaginar que estava à margem do rio e que era livre, livre, livre. Mais tarde vieram, por parte da minha mãe, as adaptações juvenis da Jane Austen e das Brontë mas quem realmente plantou a semente do pequeno monstro que sou hoje foi, indubitavelmente, a minha avó com os seus livros, o seu quintal e as suas histórias.

Bottom line? Acho que isso se perdeu hoje. Estava a falar com uma colega minha no outro dia que me disse que teve uma educação parecida através de adaptações de clássicos com personagens da Disney: Os Miseráveis com o Donald, etc. Parecendo que não, e sendo versões bastante mais ligeiras – obviamente – do que o original, as crianças liam histórias, estimulavam o cérebro e a curiosidade e, sobretudo, e aquilo que me faz mais pena hoje em dia, imaginavam e sonhavam. Claro que ler desde tenra idade não nos prepara de todo para as agruras do que se segue à infância e eu sou exemplo vivo disso. Mas a infância ninguém me tira e ler foi, desde aí, um escape a tudo o que de mau se passava à minha volta. E hoje em dia as formas de entretenimento escolhidas pelas crianças não apelam minimamente à imaginação. Não estou a criticar que joguem PlayStation, de forma alguma. Os jogos também são uma forma de escape, de distracção, de total imersão num mundo que não o nosso. Mas não é a mesma coisa.

Basicamente o que quero dizer com isto é que estou velha e que as coisas já não são como eram. Agora podem-se ir embora, vá.

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