“Eleanor and Park” – Rainbow Rowell

Valha-me Nossa Senhora. Primeiro que tudo, quem raios se chama arco-íris? Segundo, acho que o meu coração está mesmo empedernido. Porque não vibrou um único bocadinho com esta suposta “melhor história de amor de 2013”. Melhor história de parvoíce, antes assim.

Portanto isto passa-se em 1986 em Omaha, no Nebraska. Eleanor é a rapariga nova da escola que não tem lugar para se sentar no autocarro, coitadinha, e Park, um rapaz asiático, faz o serviço de a deixar sentar-se ao lado dele. No dia a seguir ela já lê os comics dele por cima do ombro. No dia seguinte ele já lhe dá mixtapes. E no dia a seguir já se amam para a vida inteira e “ai tens umas mãos tão macias”, “não, tu é que tens uma pele que parece atravessada pelo sol”. A sério. Ah, a história tenta ter profundidade com o setting familiar de Eleanor, com um padrasto violento e … espera, eu disse profundidade? OK. Vou reformular com cliché.

Existem algumas referências a Romeo and Juliet, de Shakespeare, ao longo da história. Ora eu nunca consegui achar piada nenhuma à peça até ler um estudo que a apontava como um gozo de Shakespeare à exaltação do amor. Assim, sim. Porque não há como levar aquilo a sério. “Oh Rita mas pensa na época”. Penso na época, penso. E não. E o mesmo acontece aqui. Dois adolescentes de ambientes familiares diferentes que se encontram e dizem as maiores baboseiras um ao outro sem se conhecerem minimamente e que no fim se separam. Desculpem o spoiler mas já deviam ter adivinhado quando falei em Romeo and Juliet. E ai que se separam e é muito triste e ele manda-lhe cartas e ela não responde e no fim ele recebe um postal dela com três palavras e o livro acaba. Assim.

Sim, eu já fui adolescente. Em muitos sentidos ainda o sou. Nunca namorei quando andava no Liceu mas tive uns pequenos acessos de estupidez pelo vizinho da frente, por isso consigo compreender a força e a novidade de todas essas sensações novas. Mas vamos lá ser racionais. OK? OK.

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“And the Mountains Echoed” – Khaled Hosseini

Khaled Hosseini é um escritor essencial nos dias que correm. Nos seus romances tem-nos trazido o lado desconhecido do Afeganistão, aquele que não nos mostram nas notícias. As raízes culturais brutais mas a naturalidade com que são encaradas. E a humanidade de um povo antes glorioso que é hoje visto com receio pelo Ocidente.

And the Mountains Echoed não é o melhor dos três. Os dois primeiros, The Kite Runner e A Thousand Splendid Suns têm um lugar muito especial no meu coração porque me abriram os olhos para um mundo e uma cultura que desconhecia completamente. Neste terceiro livro é dada maior importância à família e aos laços (ou falta de) que os unem. Abdullah é separado da irmã, Pari, com quem tem uma relação muito peculiar, ainda criança. Pari é vendida pelo pai a uma família abastada. Nunca mais se vêem e Pari cedo se esquece da família que deixou para trás. O livro segue então as consequências desta separação e as personagens que se vão descobrindo quando os mistérios do passado são revelados. A conclusão é esmagadora e confesso que me deixou com lágrimas nos olhos. Hosseini sabe contar uma história, transpôr para o papel ternura, amor, calor, humanidade, nostalgia.

A grande falha aqui para mim foi o foco em personagens em nada relacionadas com a família. O capítulo dedicado a Markos e Thalia podia ser cortado sem afectar de todo a história principal. Até ficaria agradecida se o tivesse sido feito. Sim, insere-se no tema do amor e aceitação familiares mas numa esfera totalmente diferente e, repito, sem relação com as personagens afegãs. A única inserção que achei adequada foi a do criminoso de guerra, por razões óbvias. Como ele devem haver milhares.

Concluindo, é um livro excelente mas não está ao nível dos dois anteriores. Mas vale muito a pena ler. É uma história que nos faz sentir e que nos dá uma vontade tremenda de dizer de imediato aos nossos pais o quanto os amamos e o quão estamos gratos por os termos na nossa vida porque muitos há que não têm essa oportunidade.

“Flowers for Algernon” – Daniel Keyes

Continuo a minha viagem de descoberta pelo mundo da ficção científica. Desta vez desviei-me por completo da lista do BuzzFeed e, se continuar a ter tão boas experiências assim, acho que a ponho de lado por completo e sigo os SF Masterworks, a recomendação de uma amiga de infância. Quanto a este Flowers for Algernon foi-me novamente sugerido pela minha querida Nancy Cantú (got it right this time!). Foi a segunda vez que segui uma sugestão dela e voltou a acertar no ponto.

Charlie Gordon é um adulto de trinta e poucos anos com um severo atraso mental. Submete-se a uma experiência que, em teoria, lhe aumentará o QI e o tornará num génio. Vamos acompanhando o progresso de Charlie através dos seus relatórios, que começam com uma linguagem básica e com erros e vão adquirindo uma clareza e inteligência impressionantes à medida que o próprio indivíduo evolui. Mas claro que há sempre uma contra-indicação.

O que gostei mais foi do carácter humano da história. Charlie tem a idade emocional de uma criança e, por muito inteligente que consiga ser, tem muito a aprender sobre a maneira como o mundo funciona. A inteligência não lhe traz aquilo que pensava: amigos, contactos, felicidade. Charlie aprende que essas coisas não dependem de quão esperto se é mas sim da bondade, integridade e humanidade de cada um. E isso, para mim, é uma mensagem bem bonita. A forma como a história se desenrola e, por fim, termina, também é muito emocionante e faz realmente pensar sobre o papel do cérebro nas nossas vidas. Como reagiríamos se víssemos o nosso corpo deteriorar-se rapidamente e, pior, se estivéssemos conscientes durante todo o processo? É algo sobre o qual penso muito. Perdi dois familiares devido a demência e testemunhei esse deterioramento. E não consigo sequer imaginar estar na pele deles. Às vezes concordo com a opinião das pessoas, que seria melhor o suicídio. Mas descansem, isso não acontece no livro. A exploração do comportamento humano influenciado pelo cérebro vai muito para além disso.

Dei-lhe cinco estrelas sem hesitar. Não chorei como pensava que ia chorar mas é muito inteligente, humano e dá muito que pensar.

“Prisoners” – 2013

Paul Dano, Hugh Jackman, Jake Gyllenhaal e Maria Bello. Não é preciso escrever mais nada como introdução.

A história central prende-se ao típico thriller no qual crianças são raptadas. O pai de uma delas, protagonizado por Hugh Jackman, vê-se a braços com uma luta interna moral sobre o que é certo e o que é errado quando se trata de trazer a filha para casa. Jake Gyllenhaal assume o papel de um detective cansado, desencantado com a profissão que me pareceu que, durante a maior parte do tempo, estava em piloto automático. A exercer a profissão porque sim. Paul Dano interpreta o papel de possível suspeito.

Tem coisas boas e tem coisas más. O bom é a intensidade e o sofrimento humano que transmite. Os conflitos internos que comandam as acções de Keller – personagem de Jackman – estão muito bem explorados e, sobretudo, interpretados. Faz-nos pensar que também não saberíamos o que fazer numa situação daquelas e que provavelmente seguiríamos os mesmos métodos. A forma como a história desenrola nos primeiros trinta minutos também é pouco habitual neste tipo de filme. O muito bom são as interpretações. Mas, passados os tais trinta minutos, o filme começa a prolongar e a prolongar e não ata nem desata. Sempre intenso e intimista mas o espectador não consegue evitar reparar em pequenos pormenores que talvez tivessem acelerado o processo (como detective capaz, Loki deveria ter sido capaz de fazer a associação entre os labirintos e o medalhão mais rapidamente; a polícia devia ter encontrado as coisas de Keller ao revistar a casa no final; etc, etc.). Mas fora geral é um bom thriller, muito frustrante por vezes. A resolução final também me pareceu demasiado optimista.

Vistas assim as coisas parece que tem mais elementos maus do que bons, não parece? Mas se gostam do género vejam. As interpretações fazem o filme.

“To Have and Have Not” – 1944

Consegui finalmente ter um tempinho para acabar este filme (tinha-o começado durante a semana passada mas, no meio de faculdade e remédios e neuras…). E, bem, este filme tem uma coisa curiosa.

Como se pode ler em qualquer página dedicada ao cinema, a história centra-se em Harry Morgan, um americano expatriado na ilha Martinica, que efectua o transporte ilegal de líderes da Resistência Francesa para tentar ajudar a belíssima rapariga que conhece no lobby de um hotel. Como já devem ter calculado, Bogart é Harry Morgan e Lauren Bacall faz as vezes de femme fatale. Realizado por Howard Hawks, o filme conta com um argumento de William Faulkner e Ernest Hemingway, entre outros. Sim, leram bem, William Faulkner e Ernest Hemingway. Mas esta não é, surpreendentemente, a coisa curiosa.

A coisa curiosa é que, independentemente do excelente argumento e da boa realização, o que faz o filme é a química entre Bacall e Bogart. To Have and To Have Not foi o primeiro filme de Bacall, embora ela seja tão, tão boa actriz que nem se nota. E ganhou não só sucesso como actriz como também ganhou um marido. Lauren conquistou completamente Bogart, como é sabido. E este filme retrata o desenrolar desse romance. E é uma coisa tão óbvia que por vezes se torna indecente de ver por ser uma ligação tão íntima, tão pessoal. Bogart mostra-nos um sorriso bestial sempre que olha para Lauren. Ela, por sua vez, não consegue esconder o brilho nos olhos e aquele sorriso irónico que tão bem a caracteriza. É a arte a imitar a vida real no seu melhor exemplo. Resta-nos apenas imaginar como seria por trás das câmaras.

O filme é caracterizado como pertencendo ao género noir mas não consigo concordar. Primeiro, a história apresenta uma forte vertente moral. Segundo, não temos a femme fatale a estragar as voltas ao personagem principal. E terceiro, aqui as emoções não estão de todo contidas. Pelo contrário. Recomendo vivamente para quem se interessa pela idade de ouro de Hollywood e por um dos seus casais mais populares. É quase ternurenta a forma como vimos a sua relação nascer.

“Iron Man 3” – 2013

Adiei e adiei mas hoje, enquanto estava a passar a ferro, lembrei-me que ainda não tinha visto. E nada melhor para ver enquanto se passa a ferro que um filme cheio de comédia, drama e acção.

Gostei, portanto. Está a milhas da desilusão que foi o segundo. Entretém imenso e o facto de ser realizado e escrito por Shane Black – o génio por trás de Kiss Kiss Bang Bang – deu um toquezinho de comédia muito bom. Serve o seu propósito!

Fiquei curiosa em saber o que se segue, tendo em conta o final. Como não sou expert em Marvel não faço a mínima ideia se o Robert está confirmado para o segundo Avengers. Está? Era uma pena que se ficasse por aqui. E o que acontece à Pepper? Obrigado.

Já disse que é mil vezes melhor que o segundo? Pronto. Só para esclarecer.

“The Man In The High Castle” – Philip K. Dick

Comecei com este livro um desafio que apanhei no fabuloso (denotar ironia) site BuzzFeed. É uma lista das “melhores” obras de fantasia e ficção científica. Ora, eu sou uma leitora muito verde deste género e tinha que começar por algum lado. Como a lista teve a aprovação oficial da minha querida amiga – e sci-fi fan extraordinaire – Nancy Saldaña, resolvi arregaçar as mangas e começar. Infelizmente acho que comecei logo pelo melhor.

Enfim. Fica o desafio: como falar deste livro sem estragar a experiência a quem nunca o leu?

Em The Man in the High Castle, Dick foge um pouco às suas visões distópicas tradicionais. Aqui não existem carros a voar nem devices como os que se podem ver em Do Androids Dream of Electric Sheep. O que Dick aqui cria é uma distopia pura e crua, sem artifícios.

A premissa é logo extremamente interessante: como seria o mundo se os Aliados tivessem perdido a guerra? Resposta: os Estados Unidos passariam a estar divididos entre controlo Japonês e controlo Nazi, a Europa inteira território Nazi e a África alvo de um genocídio brutal. O que Dick faz é criar personagens extramente simples que tentam viver nesta nova ordem. E é através delas que nos são revelados os podres do sistema, as desilusões, a perda de fé. O homem no castelo alto é o fio condutor que une estas personagens devido ao livro que publicou, The Grasshopper Lies Heavy. Todas as personagens tem acesso a este livro que foi fortemente banido pelos Nazis e Japoneses. O que nos diz o livro, então? Que os Aliados, de facto, ganharam a guerra. Uns personagens pensam que os escritos são apenas ideias de um doido mas outros, como Juliana Frink, querem levá-las mais além. Conhece o autor do livro e as respostas que recebe deixam-na desiludida mas com um resquício de esperança: será que, num mundo paralelo  a este, os Aliados realmente conseguiram vencer? Será este nosso mundo um mundo alternativo de outro mundo?

É complicado, é. Mas o que resta é que é um exercício fabuloso ver como pessoas simples se adaptam ao regime totalitário. E deixa muito em aberto, como se pode ver pelo último capítulo.

Isto não fez sentido nenhum porque não estou com capacidade para escrever agora por outros motivos. Mas leiam-no. É super inteligente e comovedor.