“Blue is The Warmest Colour” – 2013

Demorei algum tempo até ganhar coragem para escrever este artigo porque, primeiro, sou péssima a escrever críticas e segundo, sou péssima a escrever críticas sobre filmes dos quais gostei. Mas algum dia tinha que ser para este cantinho não cair em desuso. Portanto, podemos dizer que Blue is the Warmest Colour, ou La Vie d’Adèle, no seu título original, é um dos filmes sensação deste ano. Não só pelos prémios merecidos que ganhou mas também pela temática: duas raparigas que se encontram, apaixonam, e a câmara vai acompanhando a sua relação. Devo também dizer que o filme se baseia numa graphic novel que faço todas as intenções de ler.

O filme tem sido centro de atenções também pelo motivo errado: as cenas de sexo. Sim, são explícitas. Muito explícitas. Mas não são cenas de sexo lésbico feitas para atrair o público masculino, como a cena entre Mila Kunis e Natalie Portman em The Black Swan que não encaixou em nada. São cenas íntimas, puras, intensas tal como o sexo o é numa relação entre duas pessoas que se amam. Há cenas tão íntimas no filme – e não só a nível sexual – que o espectador por vezes se sente envergonhado por estar a assistir a uma dor tão real. E depois há os planos. Cada lágrima, cada sorriso, cada troca de olhares, cada silêncio estão retratados com um realismo brilhante.

O amor é o que é. Adèle e Emma descobriram-se e viveram o seu tempo juntas. Preferia que o filme tivesse seguido a graphic novel para adicionar uma carga (ainda) mais emotiva mas, se virmos os dois meios como algo dissociado, o filme acaba por nos dar uma perspectiva mais realista daquilo que pode ser um relacionamento.

Resumindo: íntimo, apaixonante, constrangedor pelas emoções à flor da pele das personagens nas alturas de dor, realista e com duas interpretações inesquecíveis. Para mim, um dos filmes do ano.

Filmes portugueses há muitos!

Allô Allô! Não, não é A Menina da Rádio, “nem a traidora da franja”. Também não é A Severa, nem mesmo a Maria Papoila!

Estreia nacional de Ana Ribeiro nos The Misfits and the Losers! Tive grande prazer em aceitar o convite para participar neste excelente blogue. Estudante de Tradução (último ano, thank God!), aspirante a escritora de best-sellers e film enthusiast, estou pronta para vingar neste blog business! Primeiramente, desejo agradecer à minha estimada colega pela minha inclusão neste simpático blog e espero que ela não se arrependa da escolha que fez! 🙂

O assunto que me traz aqui hoje é nada mais, nada menos do que Filmes Portugueses! Ah, mas desenganem-se! Não vos venho falar daquelas badalhoquices com a Soraia Chaves, que até esteve muito bem no papel de prostituta Maria dos Prazeres (nome adequadíssimo) em “As Linhas de Wellington”! Não, não, não! Nada disso!

Venho falar-vos de Filmes Portugueses do tempo dos Afonsinhos! São filmes normalmente realizados durante do Estado Novo (a preto e branco), sem grandes efeitos especiais, a banda sonora é Fado e pelo menos uma das personagens é extremamente desastrada. Normalmente, a juventude de hoje não acha muita piada ao Vasquinho e o seu “CHAPÉUS HÁ MUITOS, MEU PALERMA!”, mas temos de admitir, foram estes filmes que fizeram a época dourada do Cinema Português e a seu esquecimento talvez tenha contribuído para o declínio da nossa tradição naquilo que conhecemos hoje no mundo do Cinema Nacional.

Vi a maior parte deles e uns são muito bem escritos, piadas refinadas ao estilo de época, música mais do que adequada e uma montagem boa tendo em conta que eram feitas juntando as fitinhas de níquel e colando-as umas à outras.

Não posso falar nestes filmes sem mencionar grandes nomes como João Bastos (realizador), Cottinelli Telmo (realizador e arquitecto – conheço uma familiar dele, uma óptima Professora de Inglês), Leitão de Barros (realizador), Arthur Duarte (realizador também), Beatriz Costa (dispensa apresentações), António Silva (idem), Vasco Santana (ou Vasquinho para os amigos), Maria Eugénia, Teresa Casal  (a.k.a Cana Rachada :D), Ribeirinho (não é meu primo, não senhor, mas é um bom actor), Maria Matos e muitos mais.

Let’s face it! Muitos que dizem que não gostam de espinafres, na verdade nunca os provaram. A mesma coisa acontece com os filmes portugueses. Os comentários inteligentes de gente que nunca gastou um décimo de dioptria a ver um destes filmes e a apreciá-los, não pode ter uma opinião sobre eles e por conseguinte, não terá argumentos que suportem as idióticas observações que tenho ouvido.

Portanto, em qualidade de assídua espectadora deste tipo de filme, vim apresentar-vos as melhores maneiras de se passar a tarde, no sofá, na cama, no chão, em cima da mesa, onde quiserem… (dirty minds!).

Apresento-vos, por agora uma sugestão:

“A Canção de Lisboa”, realização e guião assinados por  Cottinelli Telmo, produzido pela Tobis Portuguesa e estreado a 7 de Novembro 1933 no Sãon Luiz conta a história de Vasquinho (Vasco Santana), estudante de medicina que sobrevive na capital à custa da mesada das tias de Trás-os-Montes que nunca vieram a Lisboa e que o consideram um aluno exemplar. Contudo, o baldas está a borrifar-se paras as aulas e quer é retiros e arraiais, cantigas populares e mulheres bonitas. O pior dá-se quando as Tias de Trás-os-Montes lhe mandam uma carta a dizer que o vêm visitar.

Do restante elenco fazem parte os actores:

António Silva

Beatriz Costa

Alfredo Silva

Ana Maria

Artur Rodrigues

Coralia Escobar

Eduardo Fernandes

Elvira Coutinho

Fernanda Campos

Francisco Costa

Henrique Alves

Ivone Fernandes

José Victor

Júlia da Assunção

Manoel de Oliveira (sim, sim, o velhote de 100 anos que ainda anda aí fresco que nem uma alface a fazer filmes)

Manuel Santos Carvalho

Maria Albertina

Maria da Luz

Silvestre Alegrim

Sofia Santos

Teresa Gomes

e Zizi Cosme.

É um filme fácil de encontrar, a edição mais recente inclui mais 3 minutos de filme e o som restaurado o que é ÓPTIMO! Portanto, provem espinafres! Não vos garanto que fiquem como o Popeye, mas ao menos experimentem porque vale a pena, sempre passam mais uns minutos com os vossos velhotes e ficam mais informados sobre o que era Portugal e o que é realmente o Cinema Português de então.

Despeço-me, por agora, com um excerto:


Bom filme!

Apanhado de filmes

Agora que o meu HP deu a alma ao criador – temporariamente, esperemos que os senhores da fábrica lhe dêem mais uns aninhos de vida – dei por mim sem razões para não ver os filmes que tinha guardados no disco. E, acreditem, este disco tem andado viajado. Comecei a razia no Domingo. Aqui ficam opiniões sobre os poucos filmes que já “despachei”.

O meu interesse neste filme foi fruto da minha relação amor-ódio com a Amy Adams. Acho-a uma actriz extremamente boa quando quer mas ultimamente parece ter escolhido os papéis mais sem sal disponíveis em Hollywood. Resolvi remediar isso com o visionamento do filme que lhe deu a nomeação para melhor actriz secundária. Ela é, sem sombra de dúvida, a alma de todo o filme. Este traz-nos a história de uma família sulista algo disfuncional com um pequeno twist: não há desenvolvimento de personagens e, sinceramente, nem é necessário. Conhecemo-los através dos olhos da esposa do filho mais velho George e dizemos-lhes adeus quando o casal parte. Nem mais, nem menos. Ficamos cientes de alguns porquês das instáveis relações entre eles mas o filme não oferece uma justificação, um closure, um “ela é assim porque isto assim assim”. Não, ela é assim porque a personagem através da qual a conhecemos a vê assim e ponto final. Também foi uma excelente surpresa ver o rapaz do The O.C. num registo mais sério e exigente.

Gosto da Amanda Seyfried, admito. Acho que é uma rapariga com um enorme potencial e tento sempre ver os novos filmes que vão saindo com ela (até arranjei paciência para o terrível Gone e o ligeiramente chato In Time – embora o meu principal interesse aí fosse o Cillian Murphy, mas adiante). E ajudou não saber rigorosamente nada sobre a Linda Lovelace. Fiquei a saber? Mais ou menos. Fiquei com uma ideia. O filme é um biopic que não foge à regra, não apresenta fórmulas novas. Os actores estão bem os seus papéis e sim, ficamos com uma ligeira ideia do que terá sido a vida de Lovelace no período do Deep Throat. Mas depois vamos ler a biografia na Wikipedia e damos conta que o filme tem mais inconsistências que o Braveheart (OK, talvez não tantas). Datas trocadas, pontos de vista biased, por aí em diante. Mas não é um filme mau! É só um filme que não traz nada de novo ao género e que, para variar, mostra a personagem principal como uma pobre vítima quando, após alguma leitura sobre o assunto, se vê que algumas coisas não batem certo.

Mau, horrível, chato, Julianne Moore o que é que te deu? Li uma crítica que dizia que o artigo na Wikipedia sobre a personagem principal era mais interessante que o filme. Concordo. Que coisa penosa. Ainda para mais com o Eddie Redmayne, actor que pura e simplesmente não suporto. Está sempre com cara de gozo.

Este foi o de hoje. Foi uma surpresa! Há algum tempo que não via um filme britânico que me enchesse tanto as medidas. A última tentativa foi o Hunky Dory e valha-me Deus, só se aproveitou o Aneurin Barnard a cantar David Bowie. Portanto foi com bastante agrado que terminei este Submarine, que trata da história de um rapaz de quinze anos dividido entre salvar a relação com o seu primeiro amor ou o casamento dos pais. Cómico, emocionante, realista. Recomendo vivamente a quem gosta do género! E tem uma banda-sonora espectacular, com contribuições de Alex Turner dos Arctic Monkeys.

“Das Boot” Director’s Cut – 1997

Antes de começar devo clarificar que 1997 é apenas a data da versão director’s cut – o filme foi lançado, pela primeira vez, em 1981.

Das Boot, filme alemão realizado por Wolfgang Peterson (“Air Force One”, “The Perfect Storm”, “Neverending Story”), relata a história da última patrulha de um submarino alemão durante a Segunda Guerra Mundial. Durante três horas e cerca de dezanove minutos, podemos ter uma ideia bastante realista de como era a vida dentro de um submarino em clima de guerra: a claustrofobia, a frustração, a ansiedade, a falta de higiene e o cansaço. É justo dizer que, durante grande parte das três horas, pouco ou nada acontece – mas é precisamente essa a intenção do filme. Nem todas as patrulhas eram feitas de batalhas épicas. Muitas delas limitavam-se a navegar sem rumo específico à espera de ordens que muitas vezes não chegavam (e, por outras, quando chegavam, eram missões quase suicidas). Acompanhamos, assim, os marinheiros na sua rotina diária que, ao longo do tempo, se vai deteriorando dando lugar a episódios quase insanes. As cenas de acção, quando chegam, têm o efeito de pôr o espectador num nível de ansiedade semelhante ao dos próprios marinheiros, fazendo-nos partilhar cada batida do coração e cada gota de suor. E convenhamos: podem dizer, com toda a certeza, qual foi a última vez que sentiram isto pelo lado alemão num filme de guerra? O final é completamente anti-climático e, acima de tudo, irónico. Não querendo entrar em detalhes, salto para algumas curiosidades que aprendi após o visionamento do filme.

Não fiquei nada surpreendida ao ler que as frotas de submarinos eram as menos pró-nazi de todo o exército alemão. Isto está retratado no filme de forma excelente e, simultaneamente, amarga. Mesmo os apoiantes mais ferverosos – que no filme estão reduzidos a um – acabam por questionar as suas crenças e todo o propósito da missão. Os marinheiros do filme são cépticos, amargos, cansados da idiotice da guerra. Pormenor curioso? Adoram cantar o It’s a Long Way to Tipperary. Gostei imenso deste retrato pois é raro, num filme de guerra, se mostrar que o “outro lado” era tão humano como o lado que estava a combater pela “liberdade” (notar as aspas) – razão pela qual filmes como “Saving Private Ryan” me fazem bastante confusão. No palco da guerra todos somos humanos e ninguém, e saliento ninguém, tem culpa dos fanatismos dos líderes. No final das contas são todos carne para canhão, sejam alemães, ingleses ou soviéticos. Segundo também li, os alemães começaram a recrutar marinheiros para os submarinos com base nas suas crenças políticas por volta de 1943, quando a frota alemã começou a sofrer grandes baixas. É aqui que entram as crianças fanáticas que podemos ver em filmes como “Der Üntergang”. 

O filme baseia-se no livro autobiográfico e anti-guerra de Lothar-Günter Buchheim com o mesmo nome. Buccheim juntou-se à frota do verdadeiro submarino para uma reportagem fotográfica e está retratado no filme através do personagem Lt. Werner. Buccheim não poupou críticas ao filme, salientando que tem notas de propaganda e que evitou redondamente todas as mensagens anti-guerra do livro. Mas sejamos honestos: nenhum escritor é capaz de ver uma adaptação do seu trabalho e afirmar que está totalmente fiel. Penso que foi o que aconteceu neste caso. O filme é claramente anti-guerra e em nenhuma parte vi tons de propaganda. Será propaganda o estarem a fazer o seu trabalho? Duvido. Buccheim também criticou a representação dos actores, que classificou demasiado dramática para a situação. Pois também pergunto: o senhor nunca foi ao cinema? Fiquemos por aqui. Devo acrescentar a este último comentário que todos os actores foram sujeitos a condições agressivas para melhor representarem o declínio físico dos seus personagens. Também eles passaram todo o tempo de rodagem em ambientes claustrofóbicos, foram proibidos de ver o sol para o tom pálido e desnutrido da pele ser mais real e as cenas foram filmadas por ordem cronológica para melhor captar as reacções e todo o drama da narrativa. Não há nenhum, e saliento nenhum, actor que represente o seu papel em demasia. Todos merecem o mérito que lhes foi reconhecido.

Para mais curiosidades sobre o processo de produção de Das Boot podem consultar a página da Wikipedia. Tem algumas histórias curiosas bem como informação sobre os métodos de filmagem e as réplicas utilizadas.

Para concluir: recomendo vivamente o visionamento deste filme para todos aqueles que gostam de aprender sobre a Segunda Guerra Mundial independentemente da frente retratada. Mostra-nos coisas que nunca conseguimos imaginar, retrata-nos um ambiente absolutamente claustrofóbico e envolve o espectador na totalidade. Sim, são três horas e dezanove minutos. Pode cansar – pessoalmente acabei o filme esgotada psicologicamente – mas vale muito, muito a pena e duvido que o efeito seja o mesmo se for visto com pausas. E tenham presente, sobretudo, que na guerra somos todos iguais.

Nota: O filme ocupa o 25º lugar na lista The 10o Best Films of World Cinema da revista Empire. Para consultar o resto da lista é favor

clicar aqui. Provavelmente criticam melhor o filme em cinco linhas do que eu num artigo longo e enfadonho.