“The Last of Robin Hood”

Não há melhor maneira de limpar o pó a esta casa do que começar por falar num filme que retrata os últimos anos de um dos maiores figurões do grupo de actores a que gosto de chamar misfits. Claro, não era um James Dean nem um Marlon Brando, mas nem sempre são as personagens que um actor representa que os tornam merecedores do chavão. Por vezes são as suas atitudes quanto indivíduo. E é assim que chegamos, senhoras e senhores, a Errol Flynn, herói romântico de filmes de capa e espada, o mais famoso dos quais Robin Hood (1938).

A reputação de Flynn fora do ecrã contrastava em toda a sua totalidade com a imagem de galã que representava com frequência. Tinha sérios problemas com álcool e possivelmente drogas e era completamente amoral quanto a mulheres. O actor David Niven, na sua autobiografia The Moon’s a Balloon, conta como o próprio filho de Flynn se recusava a falar do pai mesmo após a sua morte.

The Last of Robin Hood mostra-nos então um dos capítulos mais controversos da vida do actor que coincidiram, fatalmente, com os seus últimos anos de vida.

O filme centra-se, então, no último caso amoroso de Flynn. A jovem em questão era Beverly Aadland, uma aspirante a actriz com apenas quinze anos. O filme mostra-nos como, apesar da chocante diferença de idades entre ambos, o casal parecia ter uma relação genuína baseada em carinho e afecto e não apenas em atracção sexual por parte de Flynn ou ambição por parte de Beverly. Claro que um filme sobre um actor/actriz tende sempre a glorificá-lo aos olhos do espectador, pelo que tenho a certeza que não era tudo tão cor-de-rosa. O que é certo é que a relação teve repercussões que se estenderam até à vida familiar de Aadland que, já por si, não era propriamente ideal, com uma mãe alcoólica que via na filha a estrela de cinema que ela nunca conseguira ser. O filme vai um pouco para além da morte de Flynn para nos mostrar como as Aadland lidaram com a situação. Curiosamente, Beverly lidou com tudo de forma muito mais adulta que a mãe.

Não é um filme exemplar, claro. Pretende apenas ser informativo, mostrar um pouco de um dos maiores escândalos da privada de um dos mais célebres ícones de Hollywood, tentar atenuá-lo um pouco e tentar passar um pouco a sensação de como seria estar na pele tanto de Beverly como de Florence. Os actores fazem bons papéis mas, novamente, nada de exuberante tirando, talvez, Kevin Kline – as semelhanças físicas com Flynn são evidentes e adoptou bem os seus maneirismos e expressões “de marca”, digamos assim. Quanto ao resto, tudo mediano.

Recomendo apenas para quem gosta de cinema e tem interesse em saber um pouco mais sobre Flynn. Porque lá está, nenhum relato é totalmente imparcial. É um filme que satisfaz uma certa curiosidade mas que não nos mata a sede: queremos continuar a saber mais sobre este homem simultaneamente tão amado pelo público e tão perdido em vícios. A perfeita assimetria entre o sonho projectado pelos filmes que fazia e a sua vida pessoal.

Nota: O neto de Errol, Sean Flynn, filho de Rory Flynn, aparece por muito pouco tempo no filme. Procurem pelo nariz aquilino de Flynn e darão com o rapaz.

“Dallas Buyers Club” – 2013

Tinha uma ideia completamente errada sobre este filme. Ao ver o título, assumi de imediato que se tratasse de uma versão texana do Wolf of Wall Street. Depois dos Globos, fiquei com alguma curiosidade, ainda assumindo que fosse mais um filme sobre fraudes económicas. Mas depois li a sinopse e aconteceu o que costuma acontecer comigo: não consegui esperar um segundo até o ver.

O filme começa em 1985, quando se soube que Rock Hudson estava doente com SIDA. Ron Woodruff é um texano de gema, amante de bull riding, mulheres e droga. Um dia é-lhe diagnosticado o vírus HIV e é-lhe dito que tem apenas trinta dias para viver. Ron descobre que a indústria farmacêutica está a começar a testar o AZT em humanos e consegue obter alguns exemplares ilegalmente, apenas para descobrir que o medicamento apenas lhe destrói ainda mais o sistema imunitário. É-lhe indicado um médico alternativo no México que, através de vitaminas e outros suplementos consegue prolongar o tempo de vida dos doentes de SIDA. E é aí que a ideia de montar um negócio quid pro quo: importa estes medicamentos alternativos e vende-os a doentes de SIDA da sua região em troca de grandes somas de dinheiro por parte destes para serem membros deste “clube”. Outras personagens são Eve, uma médica que também está contra a introdução de altas doses de AZT nos pacientes e que admite que a medicina alternativa de Ron funciona e Rayon, um transsexual também doente e com problemas de droga.

A história só por si é interessante: não só por ser um caso verídico mas por mostrar como funciona a indústria farmacêutica cujo único interesse é introduzir drogas caras no mercado independentemente dos seus efeitos (as primeiras doses de AZT tinham como efeito secundário cancro, perda de medula, entre outros) e a luta de um homem que descobriu uma “cura” alternativa que nunca seria aprovada pela FDA mas que produzia efeitos visíveis. Por exemplo, Ron viveu sete anos quando lhe foram diagnosticados apenas trinta dias. Mas este é também um filme de representações pungentes. Nunca esperei ver Matthew McConaughey encarnar tão bem um papel; aliás, nunca esperei gostar de o ver num filme. Mas a sua prestação é isenta de falhas. Não é forçada. É simplesmente humana, e o crescimento pessoal de Ron, ao ver a realidade da doença que o assola, e interessantíssimo de ver. Quanto a Jared Leto, é bom voltar a vê-lo no ecrã. Nunca o achei mau actor (Requiem for a Dream, anyone?) e contribui aqui com o factor humano.

O desfecho é previsível, claro e infelizmente, mas foi bom saber que a FDA começou a administrar AZT em doses bastante mais baixas, o que reduzia os terríveis efeitos colaterais, combinadas com outro tipo de medicamentos. Portanto a luta de Ron não foi de todo em vão.

Leonardo, adoro-te, sou tua fã desde os onze anos (embora aos onze anos não fosse propriamente pelos teus méritos como actor…) mas tens aqui competição séria. Bem séria. E sinceramente acho que o Matthew se tornou no meu novo favorito para a estatueta. Embora fique super contente se ganhares.

“Carrie” – 2013

Acabei agora de ver o remake de uma das minhas histórias favoritas. Um remake que acho desnecessário mas que aguardava com alguma expectativa.

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Este poster está genial. Adiante.

Não conheço o livro do Stephen King mas vi a versão do Brian dePalma e adorei. Não vejo Carrie como uma história de terror, como quase toda a gente insiste em dizer que é. Para mim, Carrie é um hino àqueles de nós que fomos humilhados na adolescência, uma espécie de oferenda de gratificação imaginária. Porque é impossível não sorrir quando ela perde noção do que está a fazer. Até torcemos por ela. A história é conhecida de todos: Carrie White, filha de uma fanática religiosa – maravilhosamente retratada nesta versão por Julianne Moore – é a rapariga esquisita da escola, que se torna alvo de todas as atenções quando, um dia, nos balneários, lhe vem o período e ela reage de forma histérica. A nova versão aproveitou-se das novas tecnologias não disponíveis no tempo de dePalma para tornar essa humilhação mais pungente. Algumas colegas são suspensas devido a isso e planeiam vingar-se. Ao mesmo tempo, Sue, uma típica girl next door, não consegue deixar de sentir compaixão pela situação de Carrie e tenta dar-lhe um momento de sonho ao pedir ao namorado que a convide para o baile de finalistas.

Como já referi, o remake era desnecessário. A versão original tem todos os elementos necessários e conta com uma espectacular e angelical Sissy Spacek. Mas esta versão não deturpa o original. É um remake inocente, uma história de bullying nos dias de hoje, bem realizado e com uma Chloe Moretz no seu melhor papel até à data. Portanto vou escrever uma grande calamidade: o original é mais simbólico mas se preferirem ver esta versão não perdem o núcleo da história. Talvez este se debruce mais sobre a relação mãe-filha, mas é apenas isso. A idade da Chloe também está mais perto da idade original da Carrie, o que ajuda bastante.

E é aquela gratificação. Quem me dera, aos treze anos, ter os poderes da Carrie e fazer exactamente o que ela fez. Se algum dia lerem isto, meus filhos da mãe, imaginei as vossas caras esmagadas contra o vidro do carro. E desejei que também ardessem. E que a vossa vida hoje seja um inferno.

“Detachment” – 2011

Adrien Brody interpreta um professor substituto chamado Henry Barthes.

“Whatever is on my mind, I say it as I feel it, I’m truthful to myself; I’m young and I’m old, I’ve been bought and I’ve been sold, so many times. I am hard-faced, I am gone. I am just like you.”

 

Embora se entenda pelo desapegar que dá título a este filme uma sensação de distanciamento da realidade – o que, de facto, se comprova em certos segmentos da longa-metragem -, é importante depreender dessa mesma sensação uma ideia de mudança circular, e não fixa ou intemporal; no máximo dos máximos, é intermitente.

O filme acompanha aproximadamente três semanas na vida de Henry Barthes enquanto se move de escola em escola como professor substituto, nunca podendo criar laços com o corpo docente ou os alunos – um apegar, diga-se, até dar entrada provisória numa das piores escolas do estado. Os professores, tal como os alunos, são susceptíveis a surtos de raiva e dor, de desistência e mágoa, visto estarem à beira de perderem o emprego devido à qualificação estadual do estabelecimento de ensino ser das mais baixas dos últimos anos, e também em risco de perderem e a sanidade devido a cada um dos seus problemas pessoais (problemas maritais, farmacêuticos, entre outros).

Sem que haja grande interferência com o enredo, há monólogos oportunos de Henry sobre o seu próprio desenvolvimento como professor, como ser empático (ou não) ou como simples humano. Trata-se de uma abordagem directa ao âmago psicológico do personagem que, embora secundária, complementa o olhar do espectador a todas as partes do filme e cerra o intuito das acções tomadas ao longo do espaço temporal.

Torna-se evidente que este filme é um claro progresso desde o grande American History X, principalmente devido ao muito desejado afastamento de Tony Kaye das atitudes estereotípicas que tanto mancharam o lançamento do filme (pesquisem sobre Tony Kaye + Humpty Dumpty ou sobre todo o processo de produção e lançamento do AHX. Logo após, notem que Tony Kaye é judaico). No entanto, tal como o realizador se tornou maduro nas próprias aproximações cinematográficas, também no enredo se nota uma coesão maior, mais circunscrita e sobretudo cortante nas relações dos personagens; sendo o maior e mais importante deles todos a própria escola.

Há momentos de apatia, de redenção e de (des)apegamento com todo e qualquer interveniente no filme, e é isso que o torna um exemplo tão claro de uma mescla da realidade com ficção, pois temos acesso não só às reacções psicológicas e emotivas dos mesmos, mas também às físicas e (em infelizes casos) fatais.

Detachment é um colosso do cinema que não se deve negligenciar. Perguntem-se a vós mesmos o que é o (des)apegamento, mas antes disso: vejam este filme.

“The Spectacular Now” – 2013

Torço sempre o nariz a filmes coming of age. Há-os bons mas, já tendo passado a fase da adolescência há… anos de mais, consigo sempre prever o comportamento dos personagens. As lutas interiores, a barreira entre ser jovem e adulto, as decisões, o começo da responsabilidade, etc. Que é mais ou menos o que acontece neste filme.

Portanto o Sutter Keely acha-se o máximo, vive no momento tem uma namorada que também é popular, beber é fixe, festas, escola zero. Até ao dia em que a namorada lhe diz adeus e ele conhece a Aimee, a menina estranha que gosta de ficção-científica e que percebe mais sobre o que está para além das aparências do que Sutter. Romance, etc., até Sutter se reencontrar com o pai e se deparar com o que ele acha que será quando for adulto. O encontro dá-lhe uma reviravolta enorme à vida, duvidando se deva seguir o caminho do pai ou tentar algo diferente. A máxima de viver no momento já não se aplica, porque no dia a seguir há outro momento and we have to make it count.

O filme não é mau. É giro e emociona um bocadinho. Mas, para mim, o verdadeiro destaque foi mesmo a Shailene Woodley. Estou com bastante expectativa em ver as escolhas de carreira dela (já sabemos que vai entrar no Divergent e no muito aguardado The Fault in Our Stars, onde acredito que vá ser excelente) mas depois disso. Quero que ela se torne uma Jennifer Lawrence. Jovem mas extremamente talentosa. Here’s to you, Shailene!

“Prisoners” – 2013

Paul Dano, Hugh Jackman, Jake Gyllenhaal e Maria Bello. Não é preciso escrever mais nada como introdução.

A história central prende-se ao típico thriller no qual crianças são raptadas. O pai de uma delas, protagonizado por Hugh Jackman, vê-se a braços com uma luta interna moral sobre o que é certo e o que é errado quando se trata de trazer a filha para casa. Jake Gyllenhaal assume o papel de um detective cansado, desencantado com a profissão que me pareceu que, durante a maior parte do tempo, estava em piloto automático. A exercer a profissão porque sim. Paul Dano interpreta o papel de possível suspeito.

Tem coisas boas e tem coisas más. O bom é a intensidade e o sofrimento humano que transmite. Os conflitos internos que comandam as acções de Keller – personagem de Jackman – estão muito bem explorados e, sobretudo, interpretados. Faz-nos pensar que também não saberíamos o que fazer numa situação daquelas e que provavelmente seguiríamos os mesmos métodos. A forma como a história desenrola nos primeiros trinta minutos também é pouco habitual neste tipo de filme. O muito bom são as interpretações. Mas, passados os tais trinta minutos, o filme começa a prolongar e a prolongar e não ata nem desata. Sempre intenso e intimista mas o espectador não consegue evitar reparar em pequenos pormenores que talvez tivessem acelerado o processo (como detective capaz, Loki deveria ter sido capaz de fazer a associação entre os labirintos e o medalhão mais rapidamente; a polícia devia ter encontrado as coisas de Keller ao revistar a casa no final; etc, etc.). Mas fora geral é um bom thriller, muito frustrante por vezes. A resolução final também me pareceu demasiado optimista.

Vistas assim as coisas parece que tem mais elementos maus do que bons, não parece? Mas se gostam do género vejam. As interpretações fazem o filme.

“To Have and Have Not” – 1944

Consegui finalmente ter um tempinho para acabar este filme (tinha-o começado durante a semana passada mas, no meio de faculdade e remédios e neuras…). E, bem, este filme tem uma coisa curiosa.

Como se pode ler em qualquer página dedicada ao cinema, a história centra-se em Harry Morgan, um americano expatriado na ilha Martinica, que efectua o transporte ilegal de líderes da Resistência Francesa para tentar ajudar a belíssima rapariga que conhece no lobby de um hotel. Como já devem ter calculado, Bogart é Harry Morgan e Lauren Bacall faz as vezes de femme fatale. Realizado por Howard Hawks, o filme conta com um argumento de William Faulkner e Ernest Hemingway, entre outros. Sim, leram bem, William Faulkner e Ernest Hemingway. Mas esta não é, surpreendentemente, a coisa curiosa.

A coisa curiosa é que, independentemente do excelente argumento e da boa realização, o que faz o filme é a química entre Bacall e Bogart. To Have and To Have Not foi o primeiro filme de Bacall, embora ela seja tão, tão boa actriz que nem se nota. E ganhou não só sucesso como actriz como também ganhou um marido. Lauren conquistou completamente Bogart, como é sabido. E este filme retrata o desenrolar desse romance. E é uma coisa tão óbvia que por vezes se torna indecente de ver por ser uma ligação tão íntima, tão pessoal. Bogart mostra-nos um sorriso bestial sempre que olha para Lauren. Ela, por sua vez, não consegue esconder o brilho nos olhos e aquele sorriso irónico que tão bem a caracteriza. É a arte a imitar a vida real no seu melhor exemplo. Resta-nos apenas imaginar como seria por trás das câmaras.

O filme é caracterizado como pertencendo ao género noir mas não consigo concordar. Primeiro, a história apresenta uma forte vertente moral. Segundo, não temos a femme fatale a estragar as voltas ao personagem principal. E terceiro, aqui as emoções não estão de todo contidas. Pelo contrário. Recomendo vivamente para quem se interessa pela idade de ouro de Hollywood e por um dos seus casais mais populares. É quase ternurenta a forma como vimos a sua relação nascer.