“Kuroi Ame [Black Rain]” – 1989

Black Rain é um filme nipónico realizado por Shohei Imamura e que tem como principal foco a vida de uma família após ter sido afectada pela radiação causada pela bomba nuclear em Hiroshima.

A família retira-se para uma pequena aldeia onde também residem outros sobreviventes com a possibilidade de desenvolver consequências físicas causadas pela radiação. Dá a entender que foram erradicados da sociedade devido ao que presenciaram, como se fossem contagiosos. Formam-se laços de companheirismo entre os vários habitantes da aldeia mas, aos poucos, as pessoas começam a morrer de doenças relacionadas com a radiação e nem a família protagonista consegue escapar, sendo a situação da sobrinha a mais drástica.

É um filme com um ritmo calmo, como é habitual nos filmes japoneses (por favor provem que estou errada) e com algumas alusões interessantes ao erro crasso que foi a bomba e à teimosia revelada por uma Humanidade que pura e simplesmente não está interessada em aprender com o passado.

Sendo honesta: não me fez sentir nada. Se querem algo absolutamente incisivo sobre o tema, recomendo vivamente o documentário White Light/Black Rain: The Destruction of Hiroshima and Nagasaki. Tem entrevistas a sobreviventes que contam como ser vítima da bomba é basicamente sinónimo de ostracização.

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“Defying Hitler” – Sebastian Haffner

Vi pela primeira vez este título numa bibliografia para Cambridge mas não o consegui encontrar em lado nenhum. Voltei a vê-lo num artigo escrito pelo Michael Palin o que me deu ainda mais vontade de o ler porque… enfim, Michael Palin, não é? Consegui encontrá-lo, por sorte, num alfarrabista aqui em Glasgow e assim que me despachei das leituras obrigatórias para o curso comecei a lê-lo. Primeiro escrevo sobre o que trata e depois logo passo para a opinião.

Sebastian Haffner – nome verdadeiro Raimund Pretzel – foi um conceituado jornalista político e ocasional historiador alemão. Começou a escrever o manuscrito de Defying Hitler (Geshichte eines Deutschen, o que me leva a pensar que a escolha de título em inglês foi um bocadinho infeliz) durante o seu exílio em Inglaterra mas, quando começou a guerra, achou melhor parar e concentrar-se noutros temas. Foi ele o autor de Germany, Jekyll and Hyde, pequeno manual que mostrava aos ingleses os pontos fracos da Alemanha nazi e que, na altura, vendeu mais de um milhão de cópias. Depois de uma carreira de sucesso quer em Inglaterra quer na Alemanha viu-se limitado fisicamente por uma doença – nunca é explicitada qual – e pediu ao seu filho, Oliver Pretzel, para, depois da sua morte, procurar entre os seus papéis um suposto romance e enviá-lo a editoras. Oliver assim o fez. Enquanto procurava o tal romance encontrou o manuscrito de Defying Hitler e leu-o de uma só vez. Enviou-o a um amigo para ter uma segunda opinião, caso a dele estivesse influenciada pelo grau de parentesco que tinha com o autor, e a sua opinião foi secundada. O manuscrito foi publicado e, anos mais tarde, foi re-editado com dois novos capítulos que Oliver entretanto descobriu. A recepção foi, em geral, unanimemente boa mas alguns críticos duvidaram da veracidade do tom do narrador – acusavam Oliver de ter mudado o desenrolar de alguns eventos para melhorar a imagem do pai. O manuscrito foi enviado então para um proof reader que confirmou que nada tinha sido alterado. E assim o livro foi traduzido e chegou às prateleiras inglesas em 2002.

A princípio custa um pouco entrar na narrativa. O género autobiográfico nem sempre é fácil. Haffner começa com um breve Prólogo no qual fala da história da Alemanha e do povo alemão até 1933. Esta informação acaba por ser útil para uma melhor compreensão do que se segue. O que aborda, então, Defying Hitler? É a história de um cidadão berlinense, não-judeu, que testemunha a ascensão do regime nazi com incredulidade. Através dos vários episódios que vai narrando, Haffner lança algumas questões morais e possíveis explicações para o porquê de uma tão fácil inserção de um regime nacionalista na vida comum alemã. Porque, afinal, como Oliver explica na conclusão, a pergunta mais frequente depois de 1945 foi precisamente essa: como? No livro vemos os pontos fracos do povo alemão expostos e como Hitler e os seus seguidores conseguiram aproveitar-se deles. Temos aqui um perfil psicológico de todo um povo. E é uma leitura fascinante, absorvente e, sobretudo, elucidativa. Deixo aqui algumas citações que me pareceram interessantes.

Sobre a loucura por atletismo que caracterizou a era Stresemann:

It did not occur to them that, through sport, the lure of the war game, the old thrilling magic of national rivalry, was being exercised and maintained and that this was not some harmless venting of bellicose instincts. They failed to see any connection. They were blind to Germany’s relapse.

Sobre a violência do anti-semitismo nazi:

It is something new in the history of the world: an attempt to deny humans the solidarity of every species that enables it to survive; to turn human predatory instincts, that are normally directed against animals, against members of their own species, and to make a whole nation into a pack of hunting hounds. Once the violence and readiness to kill that lies beneath the surface of human nature has been awakened and turned against other humans, and even made into a duty, it is a simple matter to change the target. That can be clearly seen today; instead of ‘Jews’, one can just as easily say ‘Czechs’ or ‘Poles’ or anyone else.

Sobre a forma como este anti-semitismo era encarado pelo povo alemão:

It shows how ridiculous the attitude is, still found widely in Germany, that the anti-Semitism of the Nazis is a small side issue, at worst a minor blemish on the movement, which one can regret or accept, according to one’s personal feelings for Jews, and of ‘little significance compared to the great national issues’. In reality these ‘great national issues’ are unimportant day-to-day matters, the ephemerial business of a transitional period in European history – while the Nazis’ anti-Semitism is a fundamental danger and raises the spectre of the downfall of humanity.

Ainda sobre as reacções do povo alemão ao regime Nazi:

…, it is one of the uncanny aspects of events in Germany that the deeds have no doers and the suffering has no martyrs. Everything takes place under a kind of anaesthesia. Objectively dreadful deeds produce a thin, puny emotional response. (…) Humiliation and moral decay are accepted like minor incidents.

Sobre a forma como o regime apelou aos instintos masculinos mais básicos de camaradagem e como essa camaradagem é perigosa:

And yet I know for certain, and emphatically assert, that this very comradeship can become the means for the most terrible dehumanisation – and that it has become just that in the hands of the Nazis. They have drowned the Germans, who thirst after it, in this alcohol to the point of delirium tremens. They have made all Germans everywhere into comrades, and accustomed them to this narcotic from their earliest age: in the Hitler youth, the SA, the Reichswehr, in thousands of camps and clubs – and in doing this they have driven out something irreplaceable that cannot be compensated for by any amount of happiness.

Comradeship is part of war. Like alcohol, it is one of the great comforters and helpers for people who have to live under unbearable, inhuman conditions. It makes the intolerable torable. (…) It anaesthetises us. (…) if it is exercised only for pleasure and intoxication, for its own sake, it becomes a vice. It makes no difference that it brings a certain happiness. It corrupts and depraves men like no alcohol or opium. It makes them unfit for normal, responsible civilian life. Indeed it is, at bottom, an instrument of decivilisation.

Há um capítulo inteiro sobre esta problemática e é tão, tão interessante que podia ficar aqui mais meia hora a citá-lo. Mas melhor do que isso é lerem-no vocês, não acham?

“The Great Escape” – 1963

Filme realizado por John Sturges (“The Magnificent Seven”) e baseado no livro do mesmo nome, de Paul Brickhill, conta a história de um grupo soldados (sendo grande parte destes, pertencente às Forças Aéreas Britânicas) e da sua grande fuga de Stalag Luft III, um campo de prisioneiros gerido pela Luftwaffe.

Sendo este um filme dos anos 60, confesso que a nível de visual e atmosfera não é uma película que consiga capturar o ambiente horrível e caótico proporcionado pela guerra. Apesar de ser baseado num livro, este é um filme feito para entreter, não para relatar. Apesar de seguirmos várias personagens, há três que se destacam: o Capitão Virgil Hilts (Steve McQueen), o Tenente de vôo Bob Hendley (James Garner) e o Líder de Esquadrão* Roger Bartlett (Richard Attenborough).

A história começa com a chegada de vários prisioneiros a Stalag Luft III, onde ficamos a saber que vários dos oficiais que lá se encontram têm um longo historial de tentativas de fuga de outros campos e foram enviados para este por ser considerado mais seguro e guardado. Entre os recém-chegados encontra-se o Capitão americano, Virgil Hilts (McQueen). Hilts é o típico americano rufia e rebelde, que não tem consideração pelas “autoridades” e pelas regras (fazendo um grande contraste com os oficiais ingleses) e acaba sempre encarcerado devido à sua má conduta. É na sua primeira visita à solitária que Hilts engendra um plano para escapar. Apesar de confiante que conseguiria ser bem sucedido, é apanhado e volta a ser encarcerado. Entretanto é-nos apresentado o Esquadrão de Vôo, Roger Bartlett (Attenborough), escoltado ao campo por membros das SS, suspeito de ser cabecilha de várias tentativas de fuga nos vários campos por onde passou. O tenente de Vôo Bob Hendley, (Garner) é mostrado como o homem que consegue obter tudo aquilo que lhe é pedido, uma espécie de contrabandista (quase como que um Han Solo, digamos assim).

Incentivados pelo seu dever e devoção em causar o maior número de distúrbios possíveis atrás das linhas inimigas, um grupo de oficiais, liderados por Bartlett, começam a arquitectar um plano de fuga, que envolverá a escavação de dois túneis, aos quais são dados os nomes de código “Tom” e “Harry”. A primeira metade do filme é então passada em volta da elaboração dos vários projectos constituintes para a “Grande Evasão”. É nesta altura que podemos ver que este é um filme que visa entreter, mais do que relatar, pois a vida no campo é mostrada quase como que um “pseudo campo de férias”, onde os oficiais eram instruídos a passar o tempo com as mais diversas actividades incluindo jardinagem e observação de pássaros (imaginem a minha cara, quando é dito que serão dados instrumentos de jardinagem aos prisioneiros e lhes é dito para as usarem expressamente para jardinagem e não para escaparem), prisioneiros que passam vinte dias na solitária saem de lá com a barba feita, confecção de roupas para a fuga (num espaço que quase parecia de modista profissional).
A segunda metade do filme mostra o que sucede depois da fuga. Sem querer entrar em demasiados detalhes digamos que temos algumas perseguições tão excitantes como uma ida do meu quarto à casa de banho (aqui já é o rapaz que nasceu numa época muito diferente da do filme a falar, pois não tenho dúvidas de que entreteve o público da altura). Todos estes elementos culminam num final muito anti-climático e algo desapontante.

Em suma, “The Great Escape” é um filme que entretém, nada mais do que isso. Os actores variam em termos da sua performance. Na minha opinião Attenborough é, dos três personagens principais, o que melhor interpreta o seu papel, trazendo a conduta de um “oficial e cavalheiro” inglês e algum drama (pois é palpável a preocupação que o mesmo tem em fazer que o plano seja bem sucedido) com realismo. Por outro lado os americanos acabam por ser medíocres, McQueen parece um rapazola que se ri de tudo e todos, dando a sensação de que se encontra no liceu e não num campo de prisioneiros. Já Garner encara o seu papel com mais seriedade mas mesmo assim de uma forma algo enfadonha (mesmo havendo espaço de manobra para algo mais, envolvendo uma trama com um oficial quase cego que o próprio ajuda). O final é, como já referi acima, bastante anti-climático, dando a sensação de que o filme não chegou a lado nenhum (neste caso eu não li o livro em questão nem sei, em detalhe, como ocorreram estes eventos na realidade), o que me deixou algo desapontado.
Apesar de tudo o que escrevi, é um bom filme de entretenimento e passei os 172 minutos entretido. Sendo que é o esperado de um filme deste género não desapontou.

“Das Boot” Director’s Cut – 1997

Antes de começar devo clarificar que 1997 é apenas a data da versão director’s cut – o filme foi lançado, pela primeira vez, em 1981.

Das Boot, filme alemão realizado por Wolfgang Peterson (“Air Force One”, “The Perfect Storm”, “Neverending Story”), relata a história da última patrulha de um submarino alemão durante a Segunda Guerra Mundial. Durante três horas e cerca de dezanove minutos, podemos ter uma ideia bastante realista de como era a vida dentro de um submarino em clima de guerra: a claustrofobia, a frustração, a ansiedade, a falta de higiene e o cansaço. É justo dizer que, durante grande parte das três horas, pouco ou nada acontece – mas é precisamente essa a intenção do filme. Nem todas as patrulhas eram feitas de batalhas épicas. Muitas delas limitavam-se a navegar sem rumo específico à espera de ordens que muitas vezes não chegavam (e, por outras, quando chegavam, eram missões quase suicidas). Acompanhamos, assim, os marinheiros na sua rotina diária que, ao longo do tempo, se vai deteriorando dando lugar a episódios quase insanes. As cenas de acção, quando chegam, têm o efeito de pôr o espectador num nível de ansiedade semelhante ao dos próprios marinheiros, fazendo-nos partilhar cada batida do coração e cada gota de suor. E convenhamos: podem dizer, com toda a certeza, qual foi a última vez que sentiram isto pelo lado alemão num filme de guerra? O final é completamente anti-climático e, acima de tudo, irónico. Não querendo entrar em detalhes, salto para algumas curiosidades que aprendi após o visionamento do filme.

Não fiquei nada surpreendida ao ler que as frotas de submarinos eram as menos pró-nazi de todo o exército alemão. Isto está retratado no filme de forma excelente e, simultaneamente, amarga. Mesmo os apoiantes mais ferverosos – que no filme estão reduzidos a um – acabam por questionar as suas crenças e todo o propósito da missão. Os marinheiros do filme são cépticos, amargos, cansados da idiotice da guerra. Pormenor curioso? Adoram cantar o It’s a Long Way to Tipperary. Gostei imenso deste retrato pois é raro, num filme de guerra, se mostrar que o “outro lado” era tão humano como o lado que estava a combater pela “liberdade” (notar as aspas) – razão pela qual filmes como “Saving Private Ryan” me fazem bastante confusão. No palco da guerra todos somos humanos e ninguém, e saliento ninguém, tem culpa dos fanatismos dos líderes. No final das contas são todos carne para canhão, sejam alemães, ingleses ou soviéticos. Segundo também li, os alemães começaram a recrutar marinheiros para os submarinos com base nas suas crenças políticas por volta de 1943, quando a frota alemã começou a sofrer grandes baixas. É aqui que entram as crianças fanáticas que podemos ver em filmes como “Der Üntergang”. 

O filme baseia-se no livro autobiográfico e anti-guerra de Lothar-Günter Buchheim com o mesmo nome. Buccheim juntou-se à frota do verdadeiro submarino para uma reportagem fotográfica e está retratado no filme através do personagem Lt. Werner. Buccheim não poupou críticas ao filme, salientando que tem notas de propaganda e que evitou redondamente todas as mensagens anti-guerra do livro. Mas sejamos honestos: nenhum escritor é capaz de ver uma adaptação do seu trabalho e afirmar que está totalmente fiel. Penso que foi o que aconteceu neste caso. O filme é claramente anti-guerra e em nenhuma parte vi tons de propaganda. Será propaganda o estarem a fazer o seu trabalho? Duvido. Buccheim também criticou a representação dos actores, que classificou demasiado dramática para a situação. Pois também pergunto: o senhor nunca foi ao cinema? Fiquemos por aqui. Devo acrescentar a este último comentário que todos os actores foram sujeitos a condições agressivas para melhor representarem o declínio físico dos seus personagens. Também eles passaram todo o tempo de rodagem em ambientes claustrofóbicos, foram proibidos de ver o sol para o tom pálido e desnutrido da pele ser mais real e as cenas foram filmadas por ordem cronológica para melhor captar as reacções e todo o drama da narrativa. Não há nenhum, e saliento nenhum, actor que represente o seu papel em demasia. Todos merecem o mérito que lhes foi reconhecido.

Para mais curiosidades sobre o processo de produção de Das Boot podem consultar a página da Wikipedia. Tem algumas histórias curiosas bem como informação sobre os métodos de filmagem e as réplicas utilizadas.

Para concluir: recomendo vivamente o visionamento deste filme para todos aqueles que gostam de aprender sobre a Segunda Guerra Mundial independentemente da frente retratada. Mostra-nos coisas que nunca conseguimos imaginar, retrata-nos um ambiente absolutamente claustrofóbico e envolve o espectador na totalidade. Sim, são três horas e dezanove minutos. Pode cansar – pessoalmente acabei o filme esgotada psicologicamente – mas vale muito, muito a pena e duvido que o efeito seja o mesmo se for visto com pausas. E tenham presente, sobretudo, que na guerra somos todos iguais.

Nota: O filme ocupa o 25º lugar na lista The 10o Best Films of World Cinema da revista Empire. Para consultar o resto da lista é favor

clicar aqui. Provavelmente criticam melhor o filme em cinco linhas do que eu num artigo longo e enfadonho.