“Wide Sargasso Sea” – Jean Rhys

Continuando o tópico anterior. Não há melhor exemplo do carácter de Mr. Rochester do que o ficcionado por Jean Rhys em Wide Sargasso Sea. O tema principal é a procura de uma identidade fixa e como a perda desse objectivo pode levar à loucura. Antoinette não é branca nem negra, é crioula. Este facto põem-na em situações de confronto com os habitantes brancos e negros de Spanish Town fazendo-a sentir-se sem lugar, sem um conjunto de valores fixos que a ajudem a crescer. Eventualmente vai-se identificando mais com o lado negro da cidade mas mesmo esse lado, onde ela julgava ser aceite, a rejeita na infância. A própria mãe corta quaisquer relações com ela após a morte do filho favorito num incêndio – aqui temos, novamente, o fogo – e Antoinette tem que aprender a crescer sozinha num ambiente hostil apenas com Christophine, a criada negra, como apoio. Entra Rochester e a sua proposta de casamento pouco credível. Em Jane Eyre é referido que Rochester foi forçado a casar-se com Antoinette por causa da sua fortuna, uma vez que o estado financeiro dos Fairfax estava de mal a pior. Portanto era uma união que, à partida, estava destinada a falhar. Os dois acabam por ter uma relação puramente carnal: a estranheza da cor da pele de Antoinette excita Rochester, fá-lo sentir fome pelo exótico. Mas apenas isso. Não há amor. E começa então uma guerra de códigos morais e valores culturais que acabam por levar Antoinette à loucura. Rochester quer moldá-la ao típico ideal inglês. Antoinette é uma rapariga profundamente ligada à sua terra, aos seus costumes e Rochester sente repulsa por eles. Acha-os bárbaros (aqui podemos ver também explícito o medo que a sociedade vitoriana tinha do outro, do desconhecido, medo esse que foi expresso em romances de Stevenson e Stoker). Rochester chega ao ponto de a começar a chamar de Bertha por ser um nome tipicamente inglês. Antoinette grita-lhe vezes sem conta que o seu nome é Antoinette e não Bertha, que é Antoinette quem ela é mas sem sucesso. Antoinette começa então a beber ao mesmo tempo que Rochester descobre que a sua sogra ficou demente após a morte do filho. Rochester começa a ligar os pontos e a empurrar Antoinette cada vez mais para o percepício. Acaba por traí-la com uma criada negra à vista de Antoinette. E o resto é sabido: Antoinette, a criança que nunca teve onde se agarrar, que viveu através dos códigos e tradições de uma criada negra que a adoptou como sua filha é mais uma vez rejeitada pelo homem que pensa amar e, sobretudo, traída com uma das raças que a humilhara na infância. E a mente colapsa.

A insanidade genética é uma opção viável tendo em conta a mãe de Antoinette. Pode-se dizer que Antoinette herdou um espírito violento, obsessivo e possessivo, quase animalesco. Mas nada isenta Rochester pois foi ele que pegou nessas fraquezas genéticas as exponenciou. Ele negou a Antoinette uma identidade impondo-lhe outra, outra completamente alienígena para Antoinette. Ela nunca teve uma hipótese de formar o seu carácter, nunca. Se era louca? Era. Mas Rochester ajudou. Ajudou imenso.

Tudo isto aliado ao que escrevi sobre Mr. Rochester no texto anterior dá para ter uma imagem clara do carácter deste homem. Misógino. Egoísta. Britânico que não consegue ceder e adoptar outros costumes e estilos de vida que não os seus. Quando Rochester começa a interagir com Jane há uma ligeira mudança de carácter mas a misoginia e o egoísmo continuam lá, particularmente quando lhe propõe uma vida desonrada a seu lado. Acredito que Rochester tenha amado Jane à sua maneira e, no final do livro, tenho a certeza indubitavel que a ama. Jane representa para ele a esperança da felicidade que lhe foi roubada através da loucura de Antoinette. Mas, bem vistas as coisas, não foi ele o responsável por essa loucura?

É. Quanto ao livro em si, não gostei nem desgostei. Mas adoro pensar em Wide Sargasso SeaJane Eyre como um só e ver como Rochester progride de um para outro.

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I </3 Mr. Rochester

Acabei agora de rever a adaptação de 2011 de Jane Eyre, por Cary Fukunaga e apercebi-me o quão bom foi ter estudado a obra a fundo durante a minha estadia em Glasgow. Já a tinha lido antes – quem me conhece sabe que os meus joelhos tremem quando se fala de literatura da era Vitoriana. Mas estudá-la daquela forma, ler diversos artigos com diferentes pontos de vista, conseguiu fazer-me ver as coisas de outra perspectiva. E, infelizmente, não é uma boa perspectiva. Quando era pequena e vi, pela primeira vez, a adaptação com William Hurt e Charlotte Gainsbourg achei que faltava sentimento à história mas vi o Mr. Rochester como o típico galã Darcy-esco, o herói romântico ultra-desejado por toda a mulher. Encarava este tipo de história com normalidade e julgava que seguiam uma fórmula fixa: rapariga com inteligência fora do comum conhece homem atraente com quem consegue ter conversas com conteúdo, apaixonam-se, aparece um obstáculo, o obstáculo é ultrapassado e final feliz para todos. De facto, Jane Eyre parece obedecer a esta fórmula mas aí é que está o busílis: parece. E foi preciso crescer e ler o livro duas vezes com lápis na mão para lá chegar.

Porque Mr. Rochester não é, de todo, o herói romântico ultra-desejado. É um produto do seu tempo, é certo, com a sua camisa branca de colarinho desapertado e frases demasiado dramáticas para seu próprio bem. Mas é misógino e egoísta. E ainda me choca como uma rapariga como Jane, com a cabeça no sítio, se apaixonou por tal criatura. Certo é que nunca se deixou manipular e fez sempre o que julgava ser certo, por mais difícil que esse caminho fosse. Mas há tantas instâncias no livro que mostram que são dois seres que pouco ou nada têm a ver um com o outro. A mais gritante é o episódio da compra de prendas de casamento, no qual Rochester manifesta a sua intenção de fazer chover sobre Jane tudo o que é luxo, vesti-la com requinte, dar-lhe jóias caras. Jane chega mesmo a fazer a comparação à mulher de um sultão e nega-se a aceitar toda aquela objectificação. Mas pistas como estas há muitas e Jane continua a seguir o seu coração em vez da sua cabeça – um erro que a educação em Lowood falhou em colmatar. E o que dizer de um homem que sabe perfeitamente que não é livre de escolher o que quer e que, mesmo assim, pede outra mulher em casamento? Duvido seriamente que Rochester alguma vez tenha amado genuinamente Jane – isto é, antes do incêndio. Porque quando se ama alguém não se sujeita essa pessoa a uma situação sem honra, a uma situação que pouco ou nada tem a ver com o carácter que tanto admiramos. E ser amante de alguém ia contra tudo aquilo em que Jane acreditava, e Rochester tinha que o saber. Mas continuou com a mentira. E ainda tentou persuadir Jane a ficar.

O que me revolta é o regresso de Jane. Compreendo a paixão, compreendo o forte sentimento que nos une ao primeiro homem por quem sentimos algo mas pensem assim: Jane não tinha maneira de saber do incêndio. Não tinha maneira de saber que Bertha se tinha suicidado e que Rochester estava livre estando, assim, o seu caminho para a felicidade desimpedido. Por isso posso concluir com todo à vontade que o regresso de Jane significa uma negação de si mesma, uma pré-disposição de deitar fora tudo aquilo em que acredita e tudo o que lutou para ser (uma mulher independente, racional, não propensa a paixões violentas) por causa de um homem que lhe propôs viver uma vida humilhante. O desenrolar dos eventos é, no mínimo, conveniente. Nenhum carácter sai lesado e Rochester ainda acaba por ser visto com bons olhos: a sua cegueira significa uma final aceitação de Jane tal como ela é, agora que só lhe consegue ver o espírito. Não me convence. Jane não devia ter voltado. Não devia ter casado com St. John Rivers de maneira nenhuma, mas não devia ter voltado. O respeito ganha-se. Sim, há momentos de fraqueza em que apetece mandar tudo o que construímos ao ar para estarmos com aquela pessoa que nos faz sentir um fogo no peito mas o fogo desaparece. O auto-respeito não.

Tenho que reler o livro assim que me for possível, agora com um lápis de cor diferente. Por cada vez que Rochester for uma besta, faço um sublinhado. Vou ter o livro todo de uma cor, mais tarde ou mais cedo. Mas vá, convenhamos que no caso concreto do filme de 2011 até dava uns beijinhos ao Fassbender.

Nota: Recomendo vivamente a leitura deste artigo: The Sultan and The Slave: Feminist Orientalism and the Structure of Jane Eyre. Tem algumas ideias bastante far-fetched e nota-se um carinho especial por Bertha – ainda tenho que escrever sobre a Bertha e o Wide Sargasso Sea – mas tem um ponto de vista muito, muito interessante. Leiam!

“Persuasion” – 2007

Falei neste telefilme da ITV no artigo que escrevi sobre o medíocre Whitechapel por ter como protagonista o mesmo actor: Rupert Penry-Jones. Agora vou-me debruçar sobre ele com um bocadinho mais de atenção, quiçá fanatismo.

Para quem não sabe, o filme baseia-se na obra de Jane Austen publicada postumamente em 1818. E é uma história que tento muitas vezes ignorar que existe. Porquê? Porque fala de amor sofrido e de segundas oportunidades. Anne Elliot, protagonizada pela espectacular Sally Hawkins, é a filha do meio da ex-proeminente família Elliot, que se vê obrigada a alugar a sua enorme casa para pagar dívidas. Os inquilinos são Mr. e Mrs. Croft, esta irmã de Frederick Wentworth. E quem é Frederick Wentworth? É um oficial da marinha que, anos antes, se tinha apaixonado e pedido Anne em casamento apenas para ser recusado – Anne fora influenciada pela família a não casar com um homem que não tinha hipótese de alguma vez ter um estilo de vida estável, por mais apaixonada que estivesse. Portanto, o destino volta a pôr Wentworth e Anne a poucos metros de distância. Há culpa da parte dela, ressentimento da parte dele. Wentworth não perde uma oportunidade de mostrar a Anne o quão ficou magoado e o quão deseja que o próximo interesse amoroso seja uma mulher de opinião firme, que não seja facilmente influenciável. Mas as memórias de tempos felizes falam mais alto. Anne sofre em silêncio ao ver Wentworth aparentemente indiferente, mas Wentworth também está perturbado pela presença de Anne. E o resto é história.

Persuasion é, na minha opinião, o romance mais adulto e pessoal de Jane Austen. Nele não só notamos uma crítica social mais amarga e incisiva do que o habitual mas conseguimos salientar também os desejos de uma mulher que viveu isolada, que dedicou os seus dias à família mais próxima e que também se viu forçada a recusar a sua hipótese de felicidade por influência familiar. Gosto de pensar que Austen escreveu Persuasion como uma espécie de expiação à la Briony Tallis: uma expiação que não atenua o sofrimento de ninguém a não ser o da pessoa que causou a sua própria desgraça. Aliás, a comparação com a Briony é ligeiramente infeliz porque a Briony é simplesmente estúpida e egoísta mas adiante. Imagino Austen a escrever o reencontro de Anne e Wentworth a sonhar com uma segunda oportunidade com o seu Tom Lefroy, a escrever os diálogos finais como algo que tivesse pensado e ensaiado dizer a Tom se um dia ele regressasse. Posso ser demasiado sentimental e posso estar a ler demasiado na história mas, no final de contas, sou uma estudante de literatura. Cabe-me ser far fetched – até é quase uma obrigação.

Portanto tento sempre evitar aproximar-me da história. É demasiado emocionante até porque todos nós fizemos algo de que nos arrependemos no amor. Não que se tivéssemos feito o correcto fosse garantia de um final feliz – nunca nada o é – mas a ideia de uma segunda oportunidade, uma oportunidade real, para dizer as coisas certas e ter uma hipótese genuína de estar com quem gostamos é algo que desde adolescente me amolece o meu coração empedernido.

“The Thirty-Nine Steps” – John Buchan

Este foi mais um daqueles livros que não sabia que tinha na estante. A minha mãe tinha-me falado num livro do mesmo senhor cujo personagem sofria de gastrite crónica e só podia comer sopas e cozidos. Identifiquei-me. Ao arrumar a estante vi que tinha este entalado entre dois livros enormes e, quando acabei o Gone Girl, estando no mood de thrillers, resolvi experimentar. Não gostei.

E é estranho não ter gostado porque, em teoria, John Buchan é um dos mestres do género. E andou na Universidade de Glasgow (pontos bónus para ele). O livro conta-nos a história de Richard Hannay que se encontra, após o assassinato de um desconhecido que aparece morto no seu quarto, no meio de uma teia de espionagem política que pode ter consequências desastrosas. Hannay, em fuga, procura refúgio na zona florestal de Galloway, na Escócia. O livro divide-se em pequenas histórias sobre o percurso de Hannay e as pessoas que vai encontrando. E é isso. Demora-se mais na parte pitoresca do que propriamente na resolução do problema em si. Mas ao menos fá-lo em apenas 103 páginas.

Não digo que não seja interessante e que não esteja bem escrito. Prima por ser conciso. Mas não me fez ficar agarrada a cada página como gosto que me aconteça com livros do género.

“Sweet Tooth” – Ian McEwan

Depois do desastre que foi Solar foi com alguma relutância que peguei no novo livro de Ian McEwan. Mas estava em saldo (desculpas, desculpas) e a sinopse pareceu-me interessante portanto deixei-me de coisas e comprei-o. Ler um livro novo de IanMcEwan logo a seguir a ler um fracasso de livro novo de Zadie Smith é um grande risco: podiam ser duas desilusões em simultâneo. E, durante as primeiras cem páginas, para lá caminhava. Mas ontem fiquei a lê-lo até às quatro da manhã. Não é brilhante e não prende mas tem qualquer coisa.

A história, embora o núcleo seja completamente diferente, tem pontos em comum com Atonement, o que me leva a pensar que McEwan está a tentar voltar ao género que melhor o caracteriza em vez de se focar em desastres do género Solar. Serena Frome, narradora, é estudante de Matemática em Cambridge e, durante um caso com um professor, é groomed para entrar para o MI5. O trabalho é-lhe dado, não pelos motivos que a princípio julgamos, e Serena, embora relutante, começa a desempenhar a sua função no cargo mais baixo do Serviço – este facto serve para McEwan explorar a situação das mulheres que trabalhavam neste tipo de órgão governamental na década de 70: o preconceito, a grande dificuldade em ter um trabalho que não fosse atrás de uma secretária, etc. Mas subitamente as coisas mudam para Serena: é-lhe dado um papel na operação Sweet Tooth, operação centrada no agenciamento de escritores com tendências anti-comunistas (propaganda, portanto). Isto leva-a até Tom Haley, aspirante a escritor e, claro, os dois envolvem-se. Serena fica dividida entre aproveitar a felicidade que vive no presente e contar a verdade a Tom. Este dilema protagoniza a essência principal do livro e é devido a ele que os acontecimentos se vão desenrolando. E é uma questão delicada: qual o momento certo para contar uma verdade que pode arruinar uma relação na qual nos sentimos completamente felizes?

Como escrevi no primeiro parágrafo, é muito difícil entrar na história. McEwan parece já não saber como utilizar a narrativa na primeira pessoa, ainda para mais na pele de uma mulher. As partes que falam da situação económica e política do país são necessárias mas extenuantes e é evidente que Tom Haley é uma projecção do próprio autor. Aliás, McEwan confessa-o no posfácio: os excertos de histórias de Haley utilizadas no livro são histórias que o próprio McEwan deixou a meio – facto que, para qualquer leitor assíduo do autor, é mais que óbvio durante a leitura desses excertos. O final é aquilo a que o autor nos tem vindo a habituar: inesperado, um murro seco no estômago. Mas não é tão brutal como o final de, por exemplo, Atonement ou Amsterdam. Há a esperança de um final feliz e, se o leitor prestou atenção aos pequenos detalhes, conclui que essa felicidade foi atingida.

Tal como Atonement, é um livro que explora o processo de construção de uma narrativa e mostra o quão longe um autor está disposto a ir por uma história. Em Atonement, quando McEwan estava no seu auge, Briony não conhece limites e vive numa perpétua ilusão de que está a fazer a coisa certa. Em Sweet Tooth, os motivos de Haley são bastante diferentes e há um certo elemento de redenção no final. Portanto não, Sweet Tooth não é a depressão e angústia de Atonement. E ainda bem.

É uma leitura que recomendo mas não vivamente. Se são fãs do autor, leiam-no. Não sairão desapontados e é infinitamente superior ao pedaço de … mau caminho que é Solar. Se nunca leram nada de Ian McEwan, deixem este para o final e peguem antes no Atonement. Conselho de amiga.

Excursões literárias – Haworth

Haworth, vila aninhada no Yorkshire, é conhecida por ser o sítio onde as irmãs Brontë viviam. Como tal e como admiradora semi-obsessiva da Emily Brontë não podia deixar passar esta oportunidade. E é aqui tão… bem, relativamente pertinho!  A aldeia é realmente pequena e espalha-se pelo vale. Tem um pequeno aglomerado do lado direito da estação de comboios – onde ainda passam comboios a vapor – onde está localizado o Hostel mas a parte principal fica acima do vale, para a esquerda da estação. Atravessa-se a ponte, sobe-se uma rua ladrilhada e já está – o que é dizer pouco porque a minha resistência física está pelos cantos; cheguei lá acima a deitar, perdoem-me o coloquialismo, os bofes pela boca.

O centro da vila consiste numa rua principal que parece que parou no tempo. As casinhas são agora as típicas casas de chá, tem algumas lojas de lembranças originais – sabem perfeitamente o tipo de turismo que a aldeia atrai e jogam com isso e tem, obviamente, excelentes livrarias de livros em segunda mão e com algumas raridades das Brontë que fazem uma pobre rapariga como eu chorar de falta de dinheiro. Subindo mais um pouco chegamos ao largo da Igreja pelo qual entramos pelo lado direito que passa paralelamente ao cemitério e termina na casa da família. Uma visita à Igreja é mandatória:

Não se consegue perceber muito bem o que diz mas marca o sítio onde estão os corpos da Emily e da Charlotte. Segundo entendi, os restos mortais estão por baixo dos pilares. Mas já passou algum tempo e não me consigo recordar com certezas. Ainda a caminho da casa da família passamos pela escola onde a Charlotte deu aulas:

Entrada para a casa:

E o cemitério que ficava entre a casa de família e a Igreja – isto porque o Sr. Brontë era pároco.

Infelizmente não se podia fotografar dentro da casa pelo que este pequeno segmento vai parecer um bocadinho sensaborão. A casa é a perfeita casa de campo idílica. Pequena, aconchegada, com divisões pequeninas com sofás em redor da lareira. As divisões estão recriadas para a época e algumas contém mobília autêntica, como o cadeirão onde a Emily faleceu. Dei por um a olhar para ele durante uns bons minutos. Tanto génio ali ao ponto de desaparecer para sempre!… Noutras salas podemos ver um vestido da Charlotte, ver as pequenas mesas de escrita que as irmãs utilizavam, ler alguma correspondência, ver desenhos de Charlotte e aprender mais sobre o misterioso irmão Brontë. Qualquer admirador das irmãs, de qualquer uma das irmãs (a minha preferência vai para a Emily, no entanto) irá adorar a excelente exposição destes objectos de dia a dia por elas utilizados.

É nas traseiras da casa que se começam os passeios para as moorlands. Estando a viajar sozinha não me aventurei muito por aí além mas fiz questão de sentir o sítio.

Depois de visitar este lugar tornou-se para mim fácil perceber como é que as moorlands são quase um personagem em Wuthering Heights. É toda a realidade que Emily conhecia, vivendo para a lida doméstica e para a escrita. Eram o seu escape. Wuthering Heights nasceu do seu amor pelas moorlands, sem sombra de dúvida. E ainda hei-de lá voltar com companhia para ouvir o vento durante a noite.

Próxima excursão literária? Está difícil. Estamos na fase do orçamento.

Nota: Há um texto muito giro escrito pela Virginia Woolf sobre Haworth. Recomendo!

“The Pains of Sleep” – Samuel Taylor Coleridge

Ere on my bed my limbs I lay,

It hath not been my use to pray

With moving lips or bended knees;

But silently, by slow degrees,

My spirit I to Love compose,

In humble trust mine eye-lids close,

With reverential resignation,

No wish conceived, no thought exprest,

Only a sense of supplication;

A sense o’er all my soul imprest

That I am weak, yet not unblest,

Since in me, round me, every where

Eternal Strength and Wisdom are.

 

But yester-night I prayed aloud

In anguish and in agony,

Up-starting from the fiendish crowd

Or fhapes and thoughts that tortured me:

A lurid light, a trampling throng,

Sense of intolerable wrong,

And whom I scorned, those only strong!

Thirst of revenge, the powerless will

Still baffled, and yet burning still!

Desire with loathing strangely mixed

On wild or hateful subjects fixed.

Fantastic passions! maddening brawl!

 

And shame and terror over all!

Deeds to be hid which were not hid,

Which all confused I could not know

Whether I suffered, or I did:

For all seemed guilt, remorse or woe,

My own or others still the same

Life-stifling fear, soul-stifling shame.

 

So two nights passed: the night’s dismay

Saddened and stunned the coming day.

Sleep, the wide blessing, seemed to me

Distemper’s worst calamity.

The third night, when my own loud scream

Had waked me from the fiendish dream,

O’ercome with sufferings strange and wild,

I wept as I had been a child;

And having thus by tears subdued

My anguish to a milder mood,

Such punishments, I said, were due

To natures deepliest stained with sin, –

For aye entempesting anew

The unfathomable hell within,

The horror of their deeds to view,

To know and loathe, yet wish and do!

Such griefs with such men well agree,

But wherefore, wherefore fall on me?

To be beloved is all I need,

And whom I love, I love indeed.

 

Estou oficialmente apaixonada por este senhor. Sempre pensei que o meu poeta de eleição deste período fosse, oh cliché dos clichés, o Wordsworth mas, como já escrevi sobre ele no ensaio, tive que escolher outro no qual focar a minha atenção no exame. E apareceu o Coleridge. Já tinha dado o This Lime-Tree Bower My Prison em Lisboa mas não me tinha dito nada – achei-o mais complexo que o Wordsworth e, não sendo grande fã de poesia, pu-lo imediatamente de parte. Mas o passar dos anos traz experiência de vida e experiência de vida traz um outro olhar para determinadas coisas e creio que foi isso que aconteceu. Sim, é mais complexo que Wordsworth, sem dúvida – mas isso torna-o mais autêntico. Nas suas linhas é possível sentir toda a dor que assolou a sua vida, o desapontamento consigo mesmo pela dependência de substâncias e a falta de confiança que o fazia desdenhar as capacidades que, conscientemente, sabia ter. As linhas acima foram escritas, segundo o próprio, durante uma altura em que tentou deixar os químicos, mantendo apenas os de que mais necessitava, e viu o seu sono severamente influenciado pela falta de químicos. E não podemos, claramente, ver na sua escrita todo o pânico e angústia que caracterizam uma noite de insónia? Todo o mal que fizemos vem ao de cima; deeds to be hid were not hid. Através da insónia conhecemos o nosso lado mais negro e acabamos por nos conhecer melhor a nós próprios. Este senhor é mágico. Mágico. Estou absolutamente rendida.