The Victoria Letters – H. Rappaport/D. Goodwin

I’m a bit conflicted about this, to be honest.

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As can be told by the jacket design, this is the official companion to the good-but-not-amazing ITV series Victoria. It came out just as the first season ended and, being me and an avid fan of Victoria’s early life and her romance with Albert I instantly pre-ordered it, seduced by the title. I knew there were many publications collecting the Queen’s letters but I hoped this book, aiming as it is at a wider, non-academic audience, would condense them and make a careful selection. It does that – but does it a bit too much.

This should be called Excerpts from Victoria’s Journals with Quotations Taken From Her Letters: A Concise Guide for the Historical Illiterate. The letters are few and very shortened. The journal excerpts are more abundant, but still not very surprising – with perhaps an exception to the two curious references to future Portuguese monarchs and the occasional anecdote or fact. I didn’t know, for instance, that Albert was delivered by the same midwife that delivered Victoria three months earlier. Which makes the fangirl in me believe that it was FATE, OKAY?!

Anyway, the book’s main text by author Helen Rappaport is extremely informative to those who aren’t familiar with Victoria’s life. It’s a very good introduction but those of us who know a bit more finish reading it wishing it went a little further. Also, the way it ends feels rushed. It has a proper introduction, but it ends abruptly with a brief reference to a possible second season, which has since then been confirmed. The Behind the Scenes section is interesting, but it also ends aprubtly. It reads like “sets-costumes-hair-bam-bam-bam-done”. I like my non-fiction books to be fully rounded.

It is, however, a beautifully constructed book with plenty of photographs from the series and scans of 19th century prints. Again, I recommend it if you’re a Victorian era enthusiast or if you’re curious about learning more about Victoria’s early life. I also recommend it as a collection piece, as a companion piece, something to look good on the shelf. But it fails to go a bit further and the title is misleading.

“Life After Life” – Kate Atkinson

Continuo a minha saga de ler os apelidados “melhores livros do ano” para me manter a par com o que se escreve hoje em dia e não estar sempre com o nariz enfiado em romances vitorianos e não-ficção histórica. A seguir ao terrível Eleanor and Park seguiu-se este Life After Life, de Kate Atkinson, cuja premissa é que a vida é algo circular, que se está sempre a repetir e que é possível, de certa forma, voltar atrás e corrigir o mal que causámos. Parece bem, não parece? Mas não é. Pessoalmente, repetir a minha ainda curta vida ad eternum seria o pior inferno a que me podiam sujeitar. Mas voltemos ao livro.

Ursula nasceu em 1910 e morreu no mesmo dia. Ursula nasceu em 1910 e sobrevive. Ursula morre afogada em criança e volta a nascer em 1910. E por aí em diante. À medida que estes constantes renascimentos ocorrem Ursula começa a sentir um certo tipo de premonição e consegue evitar que coisas más aconteçam na sua vida e aos seus familiares – por vezes usando até alguma crueldade. De início Ursula não consegue compreender de onde vêm estas premonições mas, quando finalmente percebe o quão especial é, decide encarregar-se de salvar a Humanidade de uma das maiores atrocidades de sempre: a Segunda Guerra Mundial.

O livro é enorme. Podia ser encurtado sem prejudicar a história, sem dúvida. Mas a maneira como está escrito ajuda imenso a manter o leitor interessado e alguns dos percursos de vida de Ursula são muito cativantes. Ursula, nas suas várias vidas, conhece dor absoluta, ostracização, coragem, amor, desolação. A única coisa que realmente aponto como apressado é o final, quando Ursula se apercebe da circularidade da sua vida. Algo que devia ser gradual é como uma revelação divina. E a partir daí tudo acontece muito rápido e o livro acaba de forma aberta, deixando-nos com a ideia de que Ursula irá sempre renascer.

A seguir segue-se The Luminaries e The Goldfinch: mais dois colossos que irei ler, se tudo correr bem, enrolada numa mantinha em frente à lareira com a neve a cair lá fora.

“The Last Days of Anne Boleyn” – 2013

Este artigo vai ser muito pequeno.

O documentário é de apenas um episódio de uma hora e fala, como o nome indica, dos últimos dias da segunda esposa de Henry VIII. Foca-se sobretudo nos motivos que levaram à sua execução e na exploração das várias teorias existentes. Conta com participações de Hillary Mantel (Wolf Hall, Bring Up The Bodies), Alison Weir (demasiados para escrever aqui), uma senhora nova de quem gostei bastante chamada Suzannah Lipscombe e a infame Philippa Gregory.  Também aparece um senhor de quem gostei imenso mas cujo nome agora não me ocorre. David Starkey? Also assim.

Pessoalmente não sou nada fã da Anne Boleyn. Sei pouquíssimo sobre ela para além do que é lugar-comum mas a opinião que tenho é de que era uma mulher extremamente arrogante e ambiciosa. E este documentário tem a grande vantagem de nunca a vitimizar. Algumas historiadoras simpatizam com a sua história mas nenhuma delas pensa que o que aconteceu não foi, em parte, por culpa das suas acções. Pode ter sido uma mulher do seu tempo e pode ter sido vítima de acusações injustas (tenho particularmente dúvidas quanto à de incesto). E acredito, sim, que foi alvo de conspirações por parte de Cromwell, inventadas a mando ou não de Henry que já estava de olho na Jane Seymour. Mas não tenho dúvidas nenhumas de que Anne muito provavelmente seduzia homens fora do casamento e, nalgumas ocasiões, possa ter conspirado com eles. Mesmo que fosse conversa por conversa. Lá está, não tenho conhecimentos para o afirmar, mas é a ideia que tenho dela.

O que é certo é que ficou sem cabeça, o que foi um outcome giro para tudo o que Henry fez para conseguir casar com ela. Na mentalidade da época, quase podia ser considerado uma espécie de castigo divino. Ai queres-te divorciar da Catherine e ser chefe da Igreja Anglicana? Então toma, agora a tua mulher vai ter um aborto de um miúdo mal-formado e vai-te fazer a vida negra por ser inteligente, nariz empinado e ambiciosa. Não admira que todas as outras tenham sido submissas e que, quando apareceu outra que lhe pudesse ter feito frente (Anne of Cléves), a coisa tenha corrido mal.

Recomendo o documentário, sobretudo pelos comentários da Hillary Mantel. Que senhora adorável e inteligente.

“She-Wolves: England’s Early Queens” – 2012

Dei com este documentário completamente por acaso. Estava à procura de episódios da série espanhola Isabel, baseada na vida da (grande) Isabel, a Católica, e vejo na lista o segundo episódio desta série. E pensei “Olha lá, em vez de perderes tempo com Espanha que não é bem a tua área mais valia veres um documentário da BBC sobre uma coisa que adoras”. E acedi ao chamamento. Depois de uma intensiva noite com o computador sempre ligado, consegui começar a ver na Quinta-feira. E aqui fica uma pequena reflexão.

Baseado no livro do mesmo nome de Helen Castor, doutorada em Cambridge, o documentário segue a história das primeiras rainhas inglesas, desde a Idade Média até o final da dinastia Tudor. Embora a narração, feita pela própria autora, seja ligeiramente monótona (nós, pessoas de letras, temos um à-vontade imenso em frente a uma câmara) as pequenas biografias estão profundamente pesquisadas e levantam perguntas pertinentes relativamente a sociedades dominadas pelo sexo masculino e o quão difícil era para mulheres, na altura, afirmarem o seu poder. E acaba com a pergunta: agora que Isabel II reina mas não governa, será que uma mulher que quisesse juntar as duas funções numa só como Isabel I, por exemplo, conseguiu, não encontraria as mesmas dificuldades? Porque, olhando para uma sessão de Parlamento em Inglaterra, o sexo masculino ainda é o dominante. Bom, adiante.

O primeiro episódio fala sobre Matilda e Eleanor de Aquitânia. Duas mulheres interessantíssimas que tinham uma coisa em comum: ao se aperceberem que nunca iriam conseguir obter o poder para si mesmas fizeram de tudo para os filhos o obterem. Matilda ainda tentou ser coroada mas foi afugentada de Westminster por uma população que considerava uma mulher no trono como algo pouco natural. Eleanor anulou o primeiro casamento e virou-se contra o segundo marido, Henry II, quando este se mostrava reticente em dividir o poder pelos filhos. E era uma mulher bastante culta, sendo muito associada ao surgimento dos romances de cavalaria. O segundo episódio aborda Isabella de França e Marguerite de Anjou: a primeira, filha de Filipe, o Belo, rei de França, casou-se com Eduardo II. Quando chegou a Inglaterra constatou que o seu lugar já tinha sido preenchido – por um homem. Isabella aguentou como todas as mulheres da época eram forçadas a aguentar. O marido cumpria os deveres matrimoniais mas nada mais do que isso. Quando o amante morreu e Eduardo arranjou substituto, Isabella perdeu completamente a cabeça. Voltou para França e retornou a Inglaterra munida de um exército e, curiosamente, o povo viu-a como a libertadora do regime de Eduardo. Mais uma vez, lutou pelos direitos do filho até ao fim. Quanto a Marguerite de Anjou, figura essencial da Guerra das Rosas, lutou em lugar do marido, Henry VI, um perfeito incapaz que só de pensar em sexo ficava uma semana de cama com ansiedade.  Quase conseguiu assegurar a vítoria para Lancaster e garantir o trono ao filho após a morte de Henry quando, na batalha de Towton, tudo deu uma reviravolta e York derrotou Lancaster. Marguerite viu-se obrigada a fugir mas, mais tarde, teve outra oportunidade quando Warwick traiu o rei Eduardo IV. O terceiro e último episódio, por fim, fala de Lady Jane Grey (corações), Mary I e Isabel I. Embora não nutra grande afecto pela Mary I por causa das sangrentas perseguições religiosas que incitou aprendi que teve duas gravidezes fantasma tal era o seu desejo de ser mãe e ter um herdeiro. Fez-me sentir um bocadinho de pena dela. O facto de o marido, Filipe II (nosso rei!), não lhe ligar nenhuma também a deve ter tornado numa mulher ainda mais amarga do que era. Quanto a Isabel, pouco há de novo a saber, não é? Grande mulher, que conseguiu, finalmente, unir reinar a governar, assumindo total controlo do seu país e trazendo-lhe enorme glória. Adoro-a. Não acredito minimamente que tenha morrido virgem mas era uma mulher fabulosa. Fabulosa.

E é isto. Se tiverem interesse em ver, há muita coisa para aprender que não mencionei aqui. Quanto a mim, o que eu devia realmente fazer era largar o tesão pela Guerra das Rosas e começar a aprender algo sobre os Stuart.

Apanhado de filmes

Agora que o meu HP deu a alma ao criador – temporariamente, esperemos que os senhores da fábrica lhe dêem mais uns aninhos de vida – dei por mim sem razões para não ver os filmes que tinha guardados no disco. E, acreditem, este disco tem andado viajado. Comecei a razia no Domingo. Aqui ficam opiniões sobre os poucos filmes que já “despachei”.

O meu interesse neste filme foi fruto da minha relação amor-ódio com a Amy Adams. Acho-a uma actriz extremamente boa quando quer mas ultimamente parece ter escolhido os papéis mais sem sal disponíveis em Hollywood. Resolvi remediar isso com o visionamento do filme que lhe deu a nomeação para melhor actriz secundária. Ela é, sem sombra de dúvida, a alma de todo o filme. Este traz-nos a história de uma família sulista algo disfuncional com um pequeno twist: não há desenvolvimento de personagens e, sinceramente, nem é necessário. Conhecemo-los através dos olhos da esposa do filho mais velho George e dizemos-lhes adeus quando o casal parte. Nem mais, nem menos. Ficamos cientes de alguns porquês das instáveis relações entre eles mas o filme não oferece uma justificação, um closure, um “ela é assim porque isto assim assim”. Não, ela é assim porque a personagem através da qual a conhecemos a vê assim e ponto final. Também foi uma excelente surpresa ver o rapaz do The O.C. num registo mais sério e exigente.

Gosto da Amanda Seyfried, admito. Acho que é uma rapariga com um enorme potencial e tento sempre ver os novos filmes que vão saindo com ela (até arranjei paciência para o terrível Gone e o ligeiramente chato In Time – embora o meu principal interesse aí fosse o Cillian Murphy, mas adiante). E ajudou não saber rigorosamente nada sobre a Linda Lovelace. Fiquei a saber? Mais ou menos. Fiquei com uma ideia. O filme é um biopic que não foge à regra, não apresenta fórmulas novas. Os actores estão bem os seus papéis e sim, ficamos com uma ligeira ideia do que terá sido a vida de Lovelace no período do Deep Throat. Mas depois vamos ler a biografia na Wikipedia e damos conta que o filme tem mais inconsistências que o Braveheart (OK, talvez não tantas). Datas trocadas, pontos de vista biased, por aí em diante. Mas não é um filme mau! É só um filme que não traz nada de novo ao género e que, para variar, mostra a personagem principal como uma pobre vítima quando, após alguma leitura sobre o assunto, se vê que algumas coisas não batem certo.

Mau, horrível, chato, Julianne Moore o que é que te deu? Li uma crítica que dizia que o artigo na Wikipedia sobre a personagem principal era mais interessante que o filme. Concordo. Que coisa penosa. Ainda para mais com o Eddie Redmayne, actor que pura e simplesmente não suporto. Está sempre com cara de gozo.

Este foi o de hoje. Foi uma surpresa! Há algum tempo que não via um filme britânico que me enchesse tanto as medidas. A última tentativa foi o Hunky Dory e valha-me Deus, só se aproveitou o Aneurin Barnard a cantar David Bowie. Portanto foi com bastante agrado que terminei este Submarine, que trata da história de um rapaz de quinze anos dividido entre salvar a relação com o seu primeiro amor ou o casamento dos pais. Cómico, emocionante, realista. Recomendo vivamente a quem gosta do género! E tem uma banda-sonora espectacular, com contribuições de Alex Turner dos Arctic Monkeys.

“Wide Sargasso Sea” – Jean Rhys

Continuando o tópico anterior. Não há melhor exemplo do carácter de Mr. Rochester do que o ficcionado por Jean Rhys em Wide Sargasso Sea. O tema principal é a procura de uma identidade fixa e como a perda desse objectivo pode levar à loucura. Antoinette não é branca nem negra, é crioula. Este facto põem-na em situações de confronto com os habitantes brancos e negros de Spanish Town fazendo-a sentir-se sem lugar, sem um conjunto de valores fixos que a ajudem a crescer. Eventualmente vai-se identificando mais com o lado negro da cidade mas mesmo esse lado, onde ela julgava ser aceite, a rejeita na infância. A própria mãe corta quaisquer relações com ela após a morte do filho favorito num incêndio – aqui temos, novamente, o fogo – e Antoinette tem que aprender a crescer sozinha num ambiente hostil apenas com Christophine, a criada negra, como apoio. Entra Rochester e a sua proposta de casamento pouco credível. Em Jane Eyre é referido que Rochester foi forçado a casar-se com Antoinette por causa da sua fortuna, uma vez que o estado financeiro dos Fairfax estava de mal a pior. Portanto era uma união que, à partida, estava destinada a falhar. Os dois acabam por ter uma relação puramente carnal: a estranheza da cor da pele de Antoinette excita Rochester, fá-lo sentir fome pelo exótico. Mas apenas isso. Não há amor. E começa então uma guerra de códigos morais e valores culturais que acabam por levar Antoinette à loucura. Rochester quer moldá-la ao típico ideal inglês. Antoinette é uma rapariga profundamente ligada à sua terra, aos seus costumes e Rochester sente repulsa por eles. Acha-os bárbaros (aqui podemos ver também explícito o medo que a sociedade vitoriana tinha do outro, do desconhecido, medo esse que foi expresso em romances de Stevenson e Stoker). Rochester chega ao ponto de a começar a chamar de Bertha por ser um nome tipicamente inglês. Antoinette grita-lhe vezes sem conta que o seu nome é Antoinette e não Bertha, que é Antoinette quem ela é mas sem sucesso. Antoinette começa então a beber ao mesmo tempo que Rochester descobre que a sua sogra ficou demente após a morte do filho. Rochester começa a ligar os pontos e a empurrar Antoinette cada vez mais para o percepício. Acaba por traí-la com uma criada negra à vista de Antoinette. E o resto é sabido: Antoinette, a criança que nunca teve onde se agarrar, que viveu através dos códigos e tradições de uma criada negra que a adoptou como sua filha é mais uma vez rejeitada pelo homem que pensa amar e, sobretudo, traída com uma das raças que a humilhara na infância. E a mente colapsa.

A insanidade genética é uma opção viável tendo em conta a mãe de Antoinette. Pode-se dizer que Antoinette herdou um espírito violento, obsessivo e possessivo, quase animalesco. Mas nada isenta Rochester pois foi ele que pegou nessas fraquezas genéticas as exponenciou. Ele negou a Antoinette uma identidade impondo-lhe outra, outra completamente alienígena para Antoinette. Ela nunca teve uma hipótese de formar o seu carácter, nunca. Se era louca? Era. Mas Rochester ajudou. Ajudou imenso.

Tudo isto aliado ao que escrevi sobre Mr. Rochester no texto anterior dá para ter uma imagem clara do carácter deste homem. Misógino. Egoísta. Britânico que não consegue ceder e adoptar outros costumes e estilos de vida que não os seus. Quando Rochester começa a interagir com Jane há uma ligeira mudança de carácter mas a misoginia e o egoísmo continuam lá, particularmente quando lhe propõe uma vida desonrada a seu lado. Acredito que Rochester tenha amado Jane à sua maneira e, no final do livro, tenho a certeza indubitavel que a ama. Jane representa para ele a esperança da felicidade que lhe foi roubada através da loucura de Antoinette. Mas, bem vistas as coisas, não foi ele o responsável por essa loucura?

É. Quanto ao livro em si, não gostei nem desgostei. Mas adoro pensar em Wide Sargasso SeaJane Eyre como um só e ver como Rochester progride de um para outro.

I </3 Mr. Rochester

Acabei agora de rever a adaptação de 2011 de Jane Eyre, por Cary Fukunaga e apercebi-me o quão bom foi ter estudado a obra a fundo durante a minha estadia em Glasgow. Já a tinha lido antes – quem me conhece sabe que os meus joelhos tremem quando se fala de literatura da era Vitoriana. Mas estudá-la daquela forma, ler diversos artigos com diferentes pontos de vista, conseguiu fazer-me ver as coisas de outra perspectiva. E, infelizmente, não é uma boa perspectiva. Quando era pequena e vi, pela primeira vez, a adaptação com William Hurt e Charlotte Gainsbourg achei que faltava sentimento à história mas vi o Mr. Rochester como o típico galã Darcy-esco, o herói romântico ultra-desejado por toda a mulher. Encarava este tipo de história com normalidade e julgava que seguiam uma fórmula fixa: rapariga com inteligência fora do comum conhece homem atraente com quem consegue ter conversas com conteúdo, apaixonam-se, aparece um obstáculo, o obstáculo é ultrapassado e final feliz para todos. De facto, Jane Eyre parece obedecer a esta fórmula mas aí é que está o busílis: parece. E foi preciso crescer e ler o livro duas vezes com lápis na mão para lá chegar.

Porque Mr. Rochester não é, de todo, o herói romântico ultra-desejado. É um produto do seu tempo, é certo, com a sua camisa branca de colarinho desapertado e frases demasiado dramáticas para seu próprio bem. Mas é misógino e egoísta. E ainda me choca como uma rapariga como Jane, com a cabeça no sítio, se apaixonou por tal criatura. Certo é que nunca se deixou manipular e fez sempre o que julgava ser certo, por mais difícil que esse caminho fosse. Mas há tantas instâncias no livro que mostram que são dois seres que pouco ou nada têm a ver um com o outro. A mais gritante é o episódio da compra de prendas de casamento, no qual Rochester manifesta a sua intenção de fazer chover sobre Jane tudo o que é luxo, vesti-la com requinte, dar-lhe jóias caras. Jane chega mesmo a fazer a comparação à mulher de um sultão e nega-se a aceitar toda aquela objectificação. Mas pistas como estas há muitas e Jane continua a seguir o seu coração em vez da sua cabeça – um erro que a educação em Lowood falhou em colmatar. E o que dizer de um homem que sabe perfeitamente que não é livre de escolher o que quer e que, mesmo assim, pede outra mulher em casamento? Duvido seriamente que Rochester alguma vez tenha amado genuinamente Jane – isto é, antes do incêndio. Porque quando se ama alguém não se sujeita essa pessoa a uma situação sem honra, a uma situação que pouco ou nada tem a ver com o carácter que tanto admiramos. E ser amante de alguém ia contra tudo aquilo em que Jane acreditava, e Rochester tinha que o saber. Mas continuou com a mentira. E ainda tentou persuadir Jane a ficar.

O que me revolta é o regresso de Jane. Compreendo a paixão, compreendo o forte sentimento que nos une ao primeiro homem por quem sentimos algo mas pensem assim: Jane não tinha maneira de saber do incêndio. Não tinha maneira de saber que Bertha se tinha suicidado e que Rochester estava livre estando, assim, o seu caminho para a felicidade desimpedido. Por isso posso concluir com todo à vontade que o regresso de Jane significa uma negação de si mesma, uma pré-disposição de deitar fora tudo aquilo em que acredita e tudo o que lutou para ser (uma mulher independente, racional, não propensa a paixões violentas) por causa de um homem que lhe propôs viver uma vida humilhante. O desenrolar dos eventos é, no mínimo, conveniente. Nenhum carácter sai lesado e Rochester ainda acaba por ser visto com bons olhos: a sua cegueira significa uma final aceitação de Jane tal como ela é, agora que só lhe consegue ver o espírito. Não me convence. Jane não devia ter voltado. Não devia ter casado com St. John Rivers de maneira nenhuma, mas não devia ter voltado. O respeito ganha-se. Sim, há momentos de fraqueza em que apetece mandar tudo o que construímos ao ar para estarmos com aquela pessoa que nos faz sentir um fogo no peito mas o fogo desaparece. O auto-respeito não.

Tenho que reler o livro assim que me for possível, agora com um lápis de cor diferente. Por cada vez que Rochester for uma besta, faço um sublinhado. Vou ter o livro todo de uma cor, mais tarde ou mais cedo. Mas vá, convenhamos que no caso concreto do filme de 2011 até dava uns beijinhos ao Fassbender.

Nota: Recomendo vivamente a leitura deste artigo: The Sultan and The Slave: Feminist Orientalism and the Structure of Jane Eyre. Tem algumas ideias bastante far-fetched e nota-se um carinho especial por Bertha – ainda tenho que escrever sobre a Bertha e o Wide Sargasso Sea – mas tem um ponto de vista muito, muito interessante. Leiam!