“Life After Life” – Kate Atkinson

Continuo a minha saga de ler os apelidados “melhores livros do ano” para me manter a par com o que se escreve hoje em dia e não estar sempre com o nariz enfiado em romances vitorianos e não-ficção histórica. A seguir ao terrível Eleanor and Park seguiu-se este Life After Life, de Kate Atkinson, cuja premissa é que a vida é algo circular, que se está sempre a repetir e que é possível, de certa forma, voltar atrás e corrigir o mal que causámos. Parece bem, não parece? Mas não é. Pessoalmente, repetir a minha ainda curta vida ad eternum seria o pior inferno a que me podiam sujeitar. Mas voltemos ao livro.

Ursula nasceu em 1910 e morreu no mesmo dia. Ursula nasceu em 1910 e sobrevive. Ursula morre afogada em criança e volta a nascer em 1910. E por aí em diante. À medida que estes constantes renascimentos ocorrem Ursula começa a sentir um certo tipo de premonição e consegue evitar que coisas más aconteçam na sua vida e aos seus familiares – por vezes usando até alguma crueldade. De início Ursula não consegue compreender de onde vêm estas premonições mas, quando finalmente percebe o quão especial é, decide encarregar-se de salvar a Humanidade de uma das maiores atrocidades de sempre: a Segunda Guerra Mundial.

O livro é enorme. Podia ser encurtado sem prejudicar a história, sem dúvida. Mas a maneira como está escrito ajuda imenso a manter o leitor interessado e alguns dos percursos de vida de Ursula são muito cativantes. Ursula, nas suas várias vidas, conhece dor absoluta, ostracização, coragem, amor, desolação. A única coisa que realmente aponto como apressado é o final, quando Ursula se apercebe da circularidade da sua vida. Algo que devia ser gradual é como uma revelação divina. E a partir daí tudo acontece muito rápido e o livro acaba de forma aberta, deixando-nos com a ideia de que Ursula irá sempre renascer.

A seguir segue-se The Luminaries e The Goldfinch: mais dois colossos que irei ler, se tudo correr bem, enrolada numa mantinha em frente à lareira com a neve a cair lá fora.

“The Spectacular Now” – 2013

Torço sempre o nariz a filmes coming of age. Há-os bons mas, já tendo passado a fase da adolescência há… anos de mais, consigo sempre prever o comportamento dos personagens. As lutas interiores, a barreira entre ser jovem e adulto, as decisões, o começo da responsabilidade, etc. Que é mais ou menos o que acontece neste filme.

Portanto o Sutter Keely acha-se o máximo, vive no momento tem uma namorada que também é popular, beber é fixe, festas, escola zero. Até ao dia em que a namorada lhe diz adeus e ele conhece a Aimee, a menina estranha que gosta de ficção-científica e que percebe mais sobre o que está para além das aparências do que Sutter. Romance, etc., até Sutter se reencontrar com o pai e se deparar com o que ele acha que será quando for adulto. O encontro dá-lhe uma reviravolta enorme à vida, duvidando se deva seguir o caminho do pai ou tentar algo diferente. A máxima de viver no momento já não se aplica, porque no dia a seguir há outro momento and we have to make it count.

O filme não é mau. É giro e emociona um bocadinho. Mas, para mim, o verdadeiro destaque foi mesmo a Shailene Woodley. Estou com bastante expectativa em ver as escolhas de carreira dela (já sabemos que vai entrar no Divergent e no muito aguardado The Fault in Our Stars, onde acredito que vá ser excelente) mas depois disso. Quero que ela se torne uma Jennifer Lawrence. Jovem mas extremamente talentosa. Here’s to you, Shailene!

“Blue is The Warmest Colour” – 2013

Demorei algum tempo até ganhar coragem para escrever este artigo porque, primeiro, sou péssima a escrever críticas e segundo, sou péssima a escrever críticas sobre filmes dos quais gostei. Mas algum dia tinha que ser para este cantinho não cair em desuso. Portanto, podemos dizer que Blue is the Warmest Colour, ou La Vie d’Adèle, no seu título original, é um dos filmes sensação deste ano. Não só pelos prémios merecidos que ganhou mas também pela temática: duas raparigas que se encontram, apaixonam, e a câmara vai acompanhando a sua relação. Devo também dizer que o filme se baseia numa graphic novel que faço todas as intenções de ler.

O filme tem sido centro de atenções também pelo motivo errado: as cenas de sexo. Sim, são explícitas. Muito explícitas. Mas não são cenas de sexo lésbico feitas para atrair o público masculino, como a cena entre Mila Kunis e Natalie Portman em The Black Swan que não encaixou em nada. São cenas íntimas, puras, intensas tal como o sexo o é numa relação entre duas pessoas que se amam. Há cenas tão íntimas no filme – e não só a nível sexual – que o espectador por vezes se sente envergonhado por estar a assistir a uma dor tão real. E depois há os planos. Cada lágrima, cada sorriso, cada troca de olhares, cada silêncio estão retratados com um realismo brilhante.

O amor é o que é. Adèle e Emma descobriram-se e viveram o seu tempo juntas. Preferia que o filme tivesse seguido a graphic novel para adicionar uma carga (ainda) mais emotiva mas, se virmos os dois meios como algo dissociado, o filme acaba por nos dar uma perspectiva mais realista daquilo que pode ser um relacionamento.

Resumindo: íntimo, apaixonante, constrangedor pelas emoções à flor da pele das personagens nas alturas de dor, realista e com duas interpretações inesquecíveis. Para mim, um dos filmes do ano.

“Eleanor and Park” – Rainbow Rowell

Valha-me Nossa Senhora. Primeiro que tudo, quem raios se chama arco-íris? Segundo, acho que o meu coração está mesmo empedernido. Porque não vibrou um único bocadinho com esta suposta “melhor história de amor de 2013”. Melhor história de parvoíce, antes assim.

Portanto isto passa-se em 1986 em Omaha, no Nebraska. Eleanor é a rapariga nova da escola que não tem lugar para se sentar no autocarro, coitadinha, e Park, um rapaz asiático, faz o serviço de a deixar sentar-se ao lado dele. No dia a seguir ela já lê os comics dele por cima do ombro. No dia seguinte ele já lhe dá mixtapes. E no dia a seguir já se amam para a vida inteira e “ai tens umas mãos tão macias”, “não, tu é que tens uma pele que parece atravessada pelo sol”. A sério. Ah, a história tenta ter profundidade com o setting familiar de Eleanor, com um padrasto violento e … espera, eu disse profundidade? OK. Vou reformular com cliché.

Existem algumas referências a Romeo and Juliet, de Shakespeare, ao longo da história. Ora eu nunca consegui achar piada nenhuma à peça até ler um estudo que a apontava como um gozo de Shakespeare à exaltação do amor. Assim, sim. Porque não há como levar aquilo a sério. “Oh Rita mas pensa na época”. Penso na época, penso. E não. E o mesmo acontece aqui. Dois adolescentes de ambientes familiares diferentes que se encontram e dizem as maiores baboseiras um ao outro sem se conhecerem minimamente e que no fim se separam. Desculpem o spoiler mas já deviam ter adivinhado quando falei em Romeo and Juliet. E ai que se separam e é muito triste e ele manda-lhe cartas e ela não responde e no fim ele recebe um postal dela com três palavras e o livro acaba. Assim.

Sim, eu já fui adolescente. Em muitos sentidos ainda o sou. Nunca namorei quando andava no Liceu mas tive uns pequenos acessos de estupidez pelo vizinho da frente, por isso consigo compreender a força e a novidade de todas essas sensações novas. Mas vamos lá ser racionais. OK? OK.

“The Fault In Our Stars” – John Green

Sou uma pessoa que gosta de fazer pequenos apartes na literatura pesada para acompanhar as modas e saber o porquê de tanto alarido. Não gosto de julgar algo sem conhecimento de causa (nunca me canso de dizer que li a saga Twilight toda para ver como era e assim que acabei vendi os livros) e, sendo frequentadora assídua do site Tumblr, era impossível escapar a tudo o que rodeia John Green – sobretudo porque o Tumblr está povoado com o público alvo de Green, os chamados young adults. Ajudou também estar em vésperas de uma frequência horrível.

Hazel Grace tem cancro desde pequena. Sobreviveu a uma crise quase por milagre e agora vive com os pulmões desfeitos, fazendo-se sempre acompanhar de bombas de oxigénio. Um dia, num grupo de apoio, conhece Augustus Waters, sobrevivente da mesma doença. Estabelece-se de imediato uma ligação extremamente forte e ambos vão viver os meses mais intensos das suas vidas. Claro que, tratando-se de um livro cujos personagens são doentes, a tragédia acontece.

Honestamente, fiquei agradavelmente surpreendida. A escrita é do mais simples que pode haver, disso não há dúvida. Mas fiquei feliz por os jovens adultos terem algo assim para ler. Porque a mensagem que The Fault in Our Stars transmite é fortíssima e é muito, muito importante que esta seja apreendida desde tenra idade. Por isso, saludo John Green. A história é triste desde o princípio ao fim mas não faz disso a sua imagem de marca. Há felicidade no meio desta tristeza e é isso que o livro transmite: a preciosidade que é viver. Nada mais do que isso.

O livro está actualmente a ser adaptado para o cinema pela mão de Josh Boone. Shailene Woodley, estrela adolescente em ascensão, interpretará o papel de Hazel – para o qual já cortou radicalmente o cabelo. William Dafoe também tem um pequeno papel. O filme estreará no próximo ano.

Não tenho grande interesse em ler o resto da obra publicada de John Green. Não é um tipo de literatura que me encha as medidas e, segundo me disseram, este é mesmo o melhor deles. Mas fiquei mesmo muito, muito feliz por haver um tão bom exemplo a seguir pelos mais jovens.

“Persuasion” – 2007

Falei neste telefilme da ITV no artigo que escrevi sobre o medíocre Whitechapel por ter como protagonista o mesmo actor: Rupert Penry-Jones. Agora vou-me debruçar sobre ele com um bocadinho mais de atenção, quiçá fanatismo.

Para quem não sabe, o filme baseia-se na obra de Jane Austen publicada postumamente em 1818. E é uma história que tento muitas vezes ignorar que existe. Porquê? Porque fala de amor sofrido e de segundas oportunidades. Anne Elliot, protagonizada pela espectacular Sally Hawkins, é a filha do meio da ex-proeminente família Elliot, que se vê obrigada a alugar a sua enorme casa para pagar dívidas. Os inquilinos são Mr. e Mrs. Croft, esta irmã de Frederick Wentworth. E quem é Frederick Wentworth? É um oficial da marinha que, anos antes, se tinha apaixonado e pedido Anne em casamento apenas para ser recusado – Anne fora influenciada pela família a não casar com um homem que não tinha hipótese de alguma vez ter um estilo de vida estável, por mais apaixonada que estivesse. Portanto, o destino volta a pôr Wentworth e Anne a poucos metros de distância. Há culpa da parte dela, ressentimento da parte dele. Wentworth não perde uma oportunidade de mostrar a Anne o quão ficou magoado e o quão deseja que o próximo interesse amoroso seja uma mulher de opinião firme, que não seja facilmente influenciável. Mas as memórias de tempos felizes falam mais alto. Anne sofre em silêncio ao ver Wentworth aparentemente indiferente, mas Wentworth também está perturbado pela presença de Anne. E o resto é história.

Persuasion é, na minha opinião, o romance mais adulto e pessoal de Jane Austen. Nele não só notamos uma crítica social mais amarga e incisiva do que o habitual mas conseguimos salientar também os desejos de uma mulher que viveu isolada, que dedicou os seus dias à família mais próxima e que também se viu forçada a recusar a sua hipótese de felicidade por influência familiar. Gosto de pensar que Austen escreveu Persuasion como uma espécie de expiação à la Briony Tallis: uma expiação que não atenua o sofrimento de ninguém a não ser o da pessoa que causou a sua própria desgraça. Aliás, a comparação com a Briony é ligeiramente infeliz porque a Briony é simplesmente estúpida e egoísta mas adiante. Imagino Austen a escrever o reencontro de Anne e Wentworth a sonhar com uma segunda oportunidade com o seu Tom Lefroy, a escrever os diálogos finais como algo que tivesse pensado e ensaiado dizer a Tom se um dia ele regressasse. Posso ser demasiado sentimental e posso estar a ler demasiado na história mas, no final de contas, sou uma estudante de literatura. Cabe-me ser far fetched – até é quase uma obrigação.

Portanto tento sempre evitar aproximar-me da história. É demasiado emocionante até porque todos nós fizemos algo de que nos arrependemos no amor. Não que se tivéssemos feito o correcto fosse garantia de um final feliz – nunca nada o é – mas a ideia de uma segunda oportunidade, uma oportunidade real, para dizer as coisas certas e ter uma hipótese genuína de estar com quem gostamos é algo que desde adolescente me amolece o meu coração empedernido.

“Sweet Tooth” – Ian McEwan

Depois do desastre que foi Solar foi com alguma relutância que peguei no novo livro de Ian McEwan. Mas estava em saldo (desculpas, desculpas) e a sinopse pareceu-me interessante portanto deixei-me de coisas e comprei-o. Ler um livro novo de IanMcEwan logo a seguir a ler um fracasso de livro novo de Zadie Smith é um grande risco: podiam ser duas desilusões em simultâneo. E, durante as primeiras cem páginas, para lá caminhava. Mas ontem fiquei a lê-lo até às quatro da manhã. Não é brilhante e não prende mas tem qualquer coisa.

A história, embora o núcleo seja completamente diferente, tem pontos em comum com Atonement, o que me leva a pensar que McEwan está a tentar voltar ao género que melhor o caracteriza em vez de se focar em desastres do género Solar. Serena Frome, narradora, é estudante de Matemática em Cambridge e, durante um caso com um professor, é groomed para entrar para o MI5. O trabalho é-lhe dado, não pelos motivos que a princípio julgamos, e Serena, embora relutante, começa a desempenhar a sua função no cargo mais baixo do Serviço – este facto serve para McEwan explorar a situação das mulheres que trabalhavam neste tipo de órgão governamental na década de 70: o preconceito, a grande dificuldade em ter um trabalho que não fosse atrás de uma secretária, etc. Mas subitamente as coisas mudam para Serena: é-lhe dado um papel na operação Sweet Tooth, operação centrada no agenciamento de escritores com tendências anti-comunistas (propaganda, portanto). Isto leva-a até Tom Haley, aspirante a escritor e, claro, os dois envolvem-se. Serena fica dividida entre aproveitar a felicidade que vive no presente e contar a verdade a Tom. Este dilema protagoniza a essência principal do livro e é devido a ele que os acontecimentos se vão desenrolando. E é uma questão delicada: qual o momento certo para contar uma verdade que pode arruinar uma relação na qual nos sentimos completamente felizes?

Como escrevi no primeiro parágrafo, é muito difícil entrar na história. McEwan parece já não saber como utilizar a narrativa na primeira pessoa, ainda para mais na pele de uma mulher. As partes que falam da situação económica e política do país são necessárias mas extenuantes e é evidente que Tom Haley é uma projecção do próprio autor. Aliás, McEwan confessa-o no posfácio: os excertos de histórias de Haley utilizadas no livro são histórias que o próprio McEwan deixou a meio – facto que, para qualquer leitor assíduo do autor, é mais que óbvio durante a leitura desses excertos. O final é aquilo a que o autor nos tem vindo a habituar: inesperado, um murro seco no estômago. Mas não é tão brutal como o final de, por exemplo, Atonement ou Amsterdam. Há a esperança de um final feliz e, se o leitor prestou atenção aos pequenos detalhes, conclui que essa felicidade foi atingida.

Tal como Atonement, é um livro que explora o processo de construção de uma narrativa e mostra o quão longe um autor está disposto a ir por uma história. Em Atonement, quando McEwan estava no seu auge, Briony não conhece limites e vive numa perpétua ilusão de que está a fazer a coisa certa. Em Sweet Tooth, os motivos de Haley são bastante diferentes e há um certo elemento de redenção no final. Portanto não, Sweet Tooth não é a depressão e angústia de Atonement. E ainda bem.

É uma leitura que recomendo mas não vivamente. Se são fãs do autor, leiam-no. Não sairão desapontados e é infinitamente superior ao pedaço de … mau caminho que é Solar. Se nunca leram nada de Ian McEwan, deixem este para o final e peguem antes no Atonement. Conselho de amiga.