“Prisoners” – 2013

Paul Dano, Hugh Jackman, Jake Gyllenhaal e Maria Bello. Não é preciso escrever mais nada como introdução.

A história central prende-se ao típico thriller no qual crianças são raptadas. O pai de uma delas, protagonizado por Hugh Jackman, vê-se a braços com uma luta interna moral sobre o que é certo e o que é errado quando se trata de trazer a filha para casa. Jake Gyllenhaal assume o papel de um detective cansado, desencantado com a profissão que me pareceu que, durante a maior parte do tempo, estava em piloto automático. A exercer a profissão porque sim. Paul Dano interpreta o papel de possível suspeito.

Tem coisas boas e tem coisas más. O bom é a intensidade e o sofrimento humano que transmite. Os conflitos internos que comandam as acções de Keller – personagem de Jackman – estão muito bem explorados e, sobretudo, interpretados. Faz-nos pensar que também não saberíamos o que fazer numa situação daquelas e que provavelmente seguiríamos os mesmos métodos. A forma como a história desenrola nos primeiros trinta minutos também é pouco habitual neste tipo de filme. O muito bom são as interpretações. Mas, passados os tais trinta minutos, o filme começa a prolongar e a prolongar e não ata nem desata. Sempre intenso e intimista mas o espectador não consegue evitar reparar em pequenos pormenores que talvez tivessem acelerado o processo (como detective capaz, Loki deveria ter sido capaz de fazer a associação entre os labirintos e o medalhão mais rapidamente; a polícia devia ter encontrado as coisas de Keller ao revistar a casa no final; etc, etc.). Mas fora geral é um bom thriller, muito frustrante por vezes. A resolução final também me pareceu demasiado optimista.

Vistas assim as coisas parece que tem mais elementos maus do que bons, não parece? Mas se gostam do género vejam. As interpretações fazem o filme.

“Gone Girl” – Gillian Flynn

Há uma razão para gostar de ler livros da moda: poder falar sobre eles com conhecimento de causa. Estou sempre a dizer que li a saga Twilight toda com esse propósito e ao menos tenho o alívio de consciência que, quando digo que é mau, digo porque sei que é realmente mau. Desta vez, o livro da moda foi Gone Girl, de Gillian Flynn (ex-escritora do Entertainment Weekly, o que me fez torcer um bocadinho), e tinha toneladas de críticas – incluindo autocolantes em toda a superfície do livro – a afirmar que era o melhor thriller dos últimos tempos. Então comprei, arregacei as mangas e comecei a lê-lo.

Todos os thrillers, excepto os muito, muito, muito maus têm a vantagem de serem leituras extremamente rápidas – “leituras de praia”, chamemos-lhes assim. É um género com o qual sou bastante esquisita, para ser sincera. Mas adiante. Flynn não se saiu nada mal neste seu terceiro livro dentro do género e tem o mérito de me ter posto curiosa quanto aos outros dois, Sharp Objects e Dark Places. A história? Premissa bastante simples: Nick e Amy Dunne estão casados há cinco anos quando esta desaparece misteriosamente. Todas as provas apontam contra Nick, etc., etc. Claro que há um twist e lamento dizer que esse twist é onde a narrativa começa a falhar. Está muito bem pensado e é bastante refrescante ler algo de uma perspectiva… diferente do habitual mas é revelado antes de metade do livro. O efeito é brutal, como previsto, mas cedo se torna gasto e começa a perder o encanto, fazendo com que o leitor se pergunte se não há mais nada para além daquilo. Se for esse o efeito desejado, Flynn conseguiu-o: a cem páginas do fim dei por mim a duvidar de tudo o que lia. Se não for, é algo a ser trabalhado. A autora diz, numa entrevista que a minha edição traz no fim, que um dos autores que mais admira é Dennis Lehane. Primeiro, não me surpreende porque há muita coisa semelhante, segundo, Flynn podia aprender o timing certo para revelar os twists com Lehane.

O final também é anti-climático mas tem o mérito de ser imprevisível. Neste género queremos sempre que a justiça triunfe e, nesse sentido, o livro quebra algumas barreiras. Recomendo se querem uma leitura rápida e empolgante mas não esperem o “melhor thriller do ano”. Ou então podem sempre esperar pelo filme de David Fincher pelo qual estou muito ansiosa. Adoro a forma como ele apresenta thrillers negros e, com Flynn encarregue do argumento, tem a possibilidade de ser um excelente filme. Agora, por favor, a Reese Witherspoon é uma boa escolha mas pensem na Mélanie Laurent também. Pode ser, pode? Obrigado!

“Black Angel” – 1946

O meu primeiro filme noir foi uma bela experiência.

Neste filme de Roy William Neal, Mavis Marlowe aparece morta no seu apartamento com uma música a tocar repetidamente. Quem a encontra é Kirk Bennett e, logo, torna-se no único suspeito e é preso com sentença de morte. Catherine Bennett, sua esposa, resolve fazer de tudo para o conseguir ilibar pois acredita na sua inocência. Para isto, pede ajuda a Martin Blair, viúvo da actriz, um pianista com graves problemas de álcool que jura a pés juntos que no dia em que ela foi morta só lhe enviou uma jóia e não voltou a encontrá-la. Catherine e Martin tentam reunir as peças do puzzle e procurar a jóia, pois acreditam que quem a tem é o verdadeiro culpado. As suspeitas recaem em Marko, protagonizado pelo asqueroso Peter Lorre, que se vem a descobrir estava a ser chantageado por Mavis. Mas será chantagem o motivo? Será Marko realmente culpado?

O filme é uma caça ao homem à antiga com um final surpreendente embora ligeiramente anti-climático. Teria preferido se tivesse sido a minha teoria a sair vitoriosa. Mas o filme prende, tem um pacing rápido, não tem cenas desnecessárias e isto é algo que tenho notado em filmes deste género. É tudo fast,fast,fast. E isso é bom. Só não me convenceu a actriz que desempenha o papel de Catherine. Mas é um film noir que introduz qualquer leigo ao género e o torna curioso por mais.